Aquela triste e leda madrugada
Março 17, 2017

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de uma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
se acrescentaram em grande e largo rio;

Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.

Luiz de Camões

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Talvez de noite
Novembro 27, 2016

À minha volta tudo envelheceu

como se fosse eu, e no entanto

uma casa, ou um espaço em branco

entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.

Pois nada

surge com a sua própria forma.

Digo ‘casa’, mas refiro-me a luas e umbrais,

a lembranças extenuadas,

às trevas do corpo, lúcidas,

latejando na obscuridade de quartos interiores.

E digo ‘palavras’ porque

não sei que coisa chamar

à mudez do mundo.

E digo  ‘sentido’ sufocado

sob o pensamento

tentando respirar

a golpes de coração,

agora que se desmorona a casa

sobre todas as palavras possíveis.

jardim-de-um-mosteiro_thumb

Manuel António Pina

A forma justa
Outubro 21, 2016

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
a saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
se nada adoecer a própria forma é justa
e no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
de uma cidade humana que fosse
fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
e este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

par na floresta

Sophia de Mello Breyner Andresen,   em  O Nome das Coisas”

Não é preciso
Agosto 26, 2016

Não é preciso que a realidade exista

para acreditarmos nela. Na verdade,

se não existir tudo é mais luminoso.

Mundo, evidência submissa e soberana.

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Pedro Mexia

No meu país
Agosto 3, 2016

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

O Português paga calado cada prestação

Para banhos de sol nem casa se precisa

E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa

e o colégio do ódio é patriótica organização

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe

atenta à gravidade do momento

Ruy Belo

  Morte ao Meio-Dia

Para os lábios que o homem faz
Julho 10, 2016

Para os lábios
que o homem faz
que atraem beijos
ao redor do mundo
ficou na nossa memória
em qualquer parte a qualquer hora
um pedaço
de pão

Promessa
que se cumpre
que alimenta
o mundo

Olhos
a exigir
uma floresta

boca

Mário Cesariny, em “Pena Capital”

A Resistência do Mundo
Junho 3, 2016

É muito difícil, pois

tu explicas o mundo das coisas resistentes,

com sentimentos e emoções, coisas impalpáveis,

que dizes, por isso, serem eternas. Mas eu,

querendo muito acreditar nisso, acredito

pouco nas coisas emocionadas e mais nas

emocionantes. Não é tanto o amor que me move,

mas as suas regras : a honra, o orgulho, a piedade,

a ternura___ (antes de ser amor, nota).

.

Podia ser pior, podíamos estar naquele confronto

irresolúvel de eu achar resistentes as forças visíveis

do mundo : as casas antigas de granito ou as grandes

pontes de cimento, por exemplo. Tu, porém,

acharias isso melhor, dizes. Pois é mais fácil amar

uma casa ou uma ponte

do que a honra ou a piedade. E talvez tenhas razão.

.

Talvez não tenhamos sido feitos um para o outro. Talvez

seja este o critério para apurar o sentido dos amantes:

o modo como entendem as coisas resistentes ao mundo.

estátua

Pedro Santo Tirso 

Conformismo
Fevereiro 1, 2016

Pendurado do resto de um cigarro,
– meio aceso, meio ardido –
desfaço-me na cinza dos dias que passam,
sem que eu passe além de mim,
desenhando saudades na penumbra da memória.
.
Saudades de um futuro que o fumo leva
e que dissolvo neste whisky,
velho de mágoas destiladas
nas altas terras das dores silenciadas.
.
Sentado no silêncio frio da pedra solitária,
rumino o lume brando que me cerca,
enquanto olho o mundo
pelas vidraças da alma embaciada,
e, acomodado, reflicto:
– “as coisas são o que são!”.

© Matt Wisniewski

Vítor Bento

A mulher mais bonita
Agosto 21, 2015

estás tão bonita hoje.
quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim,
quero dizer que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as coisas, a minha voz nomeia-te para descrever a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, em “A Casa, a Escuridão”

Por todos os caminhos do mundo
Julho 26, 2015

A minha poesia é assim como uma vida que vagueia
pelo mundo,
por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar
num jardim nocturno,
ora um deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do oásis,
ora os pés cansados, sem forças para além.
Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado
de que a tempestade não lhe abalará o palácio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.
Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo
norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.
Não sei caminhos de cor.

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Fernando Namora