a rosa, timbres
Maio 19, 2020

e o outro silêncio enquanto o som repousa:

desfez-se o seu rebordo numa espuma.

de que sombra dos sons se faz a rosa?

da matéria das sombras? de nenhuma?

.

de que fosco murmúrio, cristal, bruma?

de que espirais de noite vagarosa?

do coração desfeito? ou não costuma

a luz gravar-se em sombras numa lousa?

.

coração rouco, o coração, falhada,

a voz vinda do vento se desate

num ramo de penumbras, descontínuo,

.

o mundo passe a ser feito de nada,

só de efémeras rosas a rebate,

como gritos de sangue no destino.

rosas fogo

Vasco Graça Moura

Murmúrios
Junho 22, 2016

Perseguem-me dias sempre iguais,
Num cais da infância
Entre as paredes do meu quarto.
Quatro paredes de lágrimas

Por vezes búzios em valsa pela enseada
Dos murmúrios.

A noite persegue-me entretanto
Essências do rosmaninho enlaçados de alecrim,
Cantatas de pinheiros mansos e suas
Resinas frescas.

Perseguem-me as palavras que não sei dizer,
O fado que não sei cantar,
Persegue-me a morte que não sei morrer…

Minha sina é esta,
Ter esta condição!
Não saber o que é o abraço de um irmão,
Ter dançado com as feiticeiras na eira
E observado tarde demais que a Lua era similar
À roda da carroça
Que o meu avô guardava no telheiro.

Ter entendido o amor assim que o perdi
Quando nas minhas asas já quebradas eu deixava sucumbir todo o Infinito, todas as fogueiras, todas as ausências de um querubim
E parti de mim no murmúrio sereno das fontes.

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© Célia Moura, (inédito) 19.IV.2016