Onda a onda
Agosto 28, 2019

Onda a onda o desejo no

teu rosto de mágoas e de torres

levemente descaídas para

onde não sei se nasces ou se morres

quando os meus dedos cítara a cítara

tocam a música do teu corpo nu

lá onde os teus mistérios serão meus

e chegarei às margens onde tu

talvez então me digas quem é Deus.

Mar e rochas

Manuel Alegre

Soneto do Corifeu
Julho 25, 2019

São demais os perigos desta vida
para quem tem paixão, principalmente,
quando uma lua surge de repente
e se deixa no céu, como esquecida.
.
E se ao luar que atua desvairado
vem se unir uma música qualquer,
aí então é preciso ter cuidado
porque deve andar perto uma mulher.
.
Deve andar perto uma mulher que é feita
de música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.
.
Uma mulher que é como a própria Lua:
tão linda que só espalha sofrimento,
tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

barcarola
Maio 10, 2018

quero falar aqui do meu amor, quero falar

quando o silêncio é de oiro ensimesmado,

o tempo é de ferrugem,

e o espaço é de água na longa solidão

riscada pelas aves.

.

pobre relento dos sonhos que sonhámos:

passámos por aqui, os olhos rasos de luz

e o coração embalado por um fio de música

a diluir-se no crepúsculo

com as águas morosas, a

.

sombra a carregar-se ao rés das casas, as

rosas semicerrando-se numa leve respiração.

águas do douro que corriam, para onde

levavam as lembranças como barcos

que se esquecessem do seu rumo?

.

leve brisa do mar que nos chegava,

salina sem sabermos

que anunciava as lágrimas, de que fundo

dos mares atormentados arrancava?

cais humilde das cargas, quem diria

.

que ali só atracavam desventuras?

ali, só quero falar desta golfada a desprender-se

de sonho e oiro a que te misturavas

num ledo encantamento entre rumores

que se apagavam fulvos em surdina

.

e sílabas, sílabas que na alma a pouco e pouco

emudeciam comovidas, noite, ó noite

que cobriste essas horas do teu luto,

quando será manhã para que seja

outra tarde outra vez essa harmonia?

vem

Vasco Graça Moura

A outra morada
Maio 16, 2015

É de Schumann, a música.

Dói, acalma, é transparência

última da rosa, a de Dante

no Paraíso;

não há outra morada,

outro cristal, outra ave;

há somente esse rio, esse gume

que fere, apazigua,

o corpo, a alma – quem sabe?

   música

Eugénio de Andrade   em   Rente ao Dizer (1992)

Ausência
Outubro 6, 2014

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
para que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda.

mar bravo

Jorge Luis Borges, “Fervor de Buenos Aires” (1923) (tradução de Fernando Pinto do Amaral)

Gestos
Junho 25, 2014

Gestos,

apenas gestos. A minuciosa ternura

posta nas coisas imediatas,

nas que duram contra a noite,

nas que acendem lâmpadas precárias

e contêm o silêncio,

como se música fossem

e nela nos viéssemos

perder.

.

Gestos,

tu ouves?

Nem o teu coração pode dar guarida

a tanto silêncio da terra.

.

Se agora mesmo devagar nos anoitecesse

e se, mergulhados numa aguda nostalgia

ou na recordação de um rosto,

nos desencontrássemos do mundo,

só esse gesto viria resgatar-nos,

a nós, feridos de amor e de sentido.

.

Por isso, hoje só posso dizer

o que o teu coração abandonou.

mao1

Luís Filipe Castro Mendes

A um poeta que rejeitou a sua obra
Abril 12, 2014

Não entres de bom modo nesta noite escura, disse outro poeta,

não entres sem deixar atroar pelas paredes todas

a violência do teu “não”.

.

Querem sempre reduzir-nos a uma pequena frase

de resumo e simplificação,

la petite phrase qui nous conduit au monde plus vrai de l’art

e assim nos vem roubar toda a música do mundo,

não é isto?

Não consintas.

.

Se nada podemos fazer contra a estátua de pedra

ou de sal

em que nos querem transformar,

ao menos deixemos ficar o grito

dissonante

da nossa recusa,

com toda a raiva e o amor que os brutos não entendem.

.

E só depois morrer.

noite 2

Luís Filipe Castro Mendes

Jeux interdits
Fevereiro 7, 2013

Piloto automático – 2
Junho 28, 2012

Verde vento que vestes o que resta
… da noite mal gritada em vozes loiras,
ensina-me a rasgar os precipícios
de um corpo sem verdade nem mentira
na poeira do mundo que ainda é
talvez apenas música, talvez
respiração dos astros tresloucados
sem órbita que os olhos iluminem
no silêncio tão escuro deste céu.
Verde vento que vestes a manhã,
ensina-me a falar como quem ouve
ainda a voz de alguém, o seu segredo
que a madrugada acende no meu rosto,
ensina-me a romper o dia claro.

FERNANDO PINTO DO AMARAL,  em  POEMAS ESCOLHIDOS

Dia 46
Março 12, 2012

São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pequenas.

… São as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras.

As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas.
Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo.
Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha.

São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita.

São as pessoas como tu que nunca nos pedem nada mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor.

São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram respostas para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração.

As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos.
Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino.

São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo.

couple2
Joaquim  Pessoa  em  Ano Comum