Tu vinhas
Dezembro 8, 2015

Não me fizeste sofrer
mas esperar.

Naquelas horas
emaranhadas, cheias
de serpentes,
quando
a alma me caía e eu me afogava,
tu vinhas-te aproximando,
tu vinhas nua e arranhada,
tu chegavas ensanguentada ao meu leito,
noiva minha,
e então
caminhávamos toda a noite dormindo
e, quando acordávamos,
estavas intacta e nova,
como se o vento grave dos sonhos
acendesse de novo
o fogo da tua cabeleira
e em trigo e prata submergisse
teu corpo até torná-lo deslumbrante.

Eu não sofri, meu amor,
esperava-te apenas.
Tu precisavas de mudar de coração
e de olhar
depois de tocares a profunda
zona do mar que meu peito te entregou.
Precisavas de sair da água
pura como uma gota erguida
por uma onda nocturna.

Noiva minha, tu precisaste
de morrer e de nascer, eu esperava-te.
Não sofri a procurar-te,
sabia que virias,
mas outra, com o que adoro
da mulher que não adorava,
com teus olhos, tuas mãos e tua boca,
mas com outro coração,
que amanheceu a meu lado
como se sempre tivesse estado ali
para continuar comigo para sempre.

mulher-caminhar
Pablo Neruda, em “Os Versos do Capitão“.

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A companheira
Setembro 19, 2015

Não te busquei, não te pedi: vieste.
E desde que eu nasci houve mil coisas
a que os meus olhos se deram com igual
simplicidade : o Sol, a manhã de hoje,
essa flor que é tão grácil que a não quero,
o milagre das fontes pelo Estio…
Vieste ( o Sol veio também, a flor,
a manhã de hoje, as águas…). Alegria,
mas calada alegria, mas serena,
entendimento puro, natural
encontro, natural como a chegada
do Sol, da flor, das águas, da manhã,
de ti, que eu não buscara nem pedira.

E o Amor? E o Amor? E o Amor?
-: Vieste.
Wherever

Sebastião da Gama

Os silêncios essenciais
Setembro 13, 2015

do começo
só o que te contarem
o fim
nunca o poderás contar

no entanto
nascer e morrer
são os momentos
mais importantes da tua vida

nada mais és que o intervalo
entre dois silêncios essenciais

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A. H. Cravo

Outro Poema de Natal
Dezembro 24, 2014

A alegria permanece incompleta

enquanto os anos te vincam a face,

mas não existe um único dia de Natal

em que ela não nasça.

.

O horizonte esplêndido mata a nossa sede

de um outro horizonte,

e o meu grande amor à alegria renova-se

com um fio de água no teu rosto.

Natal

Joel  Henriques

Quem a tem…
Novembro 5, 2014

Não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

.

Eu não posso senão ser

desta terra em que nasci.

Embora ao mundo pertença

e sempre a verdade vença,

qual será ser livre aqui,

não hei-de morrer sem saber.

.

Trocaram tudo em maldade,

é quase um crime viver.

Mas, embora escondam tudo

e me queiram cego e mudo,

não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

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Jorge de Sena

Soneto da 4ª feira de Cinzas
Março 9, 2011

Por seres quem me foste, grave e pura

em tão doce surpresa conquistada,

por seres uma branca criatura

de uma brancura de manhã raiada ;

 

por seres de uma rara formosura

malgrado a vida dura e atormentada,

por seres mais que a simples aventura

e menos que a constante namorada ;

 

porque te vi nascer, de mim sozinha

como a noturna flor desabrochada

a uma fala de amor, talvez perjura ;

 

por não te possuir, tendo-te minha,

por só quereres tudo, e eu dar-te nada,

hei-de lembrar-te sempre com ternura.

 

Vinicius  de  Moraes

 

 

 

Segundo Andamento
Dezembro 23, 2010

 

Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.
Para quem quiser ver a vida está cheia de nascimentos.
Nascemos muitas vezes ao longo da infância quando os olhos se abrem em espanto e alegria.
Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca.
Nascemos na sementeira da vida adulta,
entre invernos e primaveras maturando
a misteriosa transformação que coloca na haste a flor
e dentro da flor o perfume do fruto.
Nascemos muitas vezes naquela idade
onde os trabalhos não cessam, mas reconciliam-se
com laços interiores e caminhos adiados.
Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.
Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar.
Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de algumas lágrimas.
Nascemos na prece e no dom.
Nascemos no perdão e no confronto.
Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra.
Nascemos na tarefa e na partilha.
Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos.
Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.

José Tolentino de Mendonça

A mão no arado
Maio 20, 2010

Feliz aquele que administra sabiamente

a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias

Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta

entretecer nas mãos um coração tardio

Oh! como é triste arriscar em humanos regressos

o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão

ao longo do mar transbordante de nós

no demorado adeus da nossa condição

É triste no jardim  a solidão do sol

vê-lo desde o rumor e as casas da cidade

até uma vaga promessa de rio

e a pequenina vida que se concede às unhas

Mais triste é termos de nascer e  morrer

e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem

regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

É triste no outono concluir

que era o verão a única estação

Passou o solidário vento e não o conhecemos

e não soubemos ir até ao fundo da verdura

como rios que sabem como encontrar o mar

e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver

através de palavras de uma água para sempre dita

Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada

entre o fumo e o domingo na tarde de novembro

e ter como futuro o asfalto e muita gentee atrás a vida sem nenhuma infância

revendo tudo isto algum tempo depois

A tarde morre pelos dias fora

É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

Ruy Belo