Quantas vezes, Amor, me tens ferido
Junho 12, 2017

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Amor, me tens curado?

Quão fácil de um estado a outro estado

o mortal sem querer é conduzido!

.

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,

como que até regia a mão do fado,

onde o sol, bem de todos, lhe é vedado,

depois, com ferros vis se vê cingido:

.

para que o nosso orgulho as asas corte,

que variedade inclui esta medida,

este intervalo da existência à morte!

.

Travam-se gosto, e dor, sossego e lida;

é lei da natureza, é lei de sorte,

que seja o mal e o bem matiz da vida.

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Bocage

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Biografia
Dezembro 6, 2014

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

6409flores

Alberto Caeiro

Beleza
Março 19, 2014

Porto

Entrei no café com um rio na algibeira

e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira

Ao amor antigo
Julho 15, 2013

O amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige nem pede. Nada espera,

mas do destino vão nega a sentença.

.

O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.

Por aquelas mergulha no infinito,

e por estas suplanta a natureza.

.

Se em toda parte o tempo desmorona

aquilo que foi grande e deslumbrante,

a antigo amor, porém, nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.

.

Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor.

mandala-amor

Carlos Drummond de Andrade

O mundo não se fez para pensarmos nele
Julho 6, 2011

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

olhando para a direita e para a esquerda,

e, de vez em quando, olhando para trás…

E o que vejo a cada momento

é aquilo que nunca antes eu tinha visto,

e eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

que tem uma criança se, ao nascer,

reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,

porque o vejo. Mas não penso nele

porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele

( pensar é estar doente dos olhos)

mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia : tenho sentidos…

Se falo na Natureza, não é porque saiba o que ela é,

mas porque a amo, e amo-a por isso,

porque quem ama nunca sabe o que ama

nem sabe por que ama, nem o que é amar …

Amar é a eterna inocência,

e a única inocência não pensar…

Alberto Caeiro em  O Guardador de Rebanhos

Poema da minha natureza
Março 17, 2010

Crescem as flores no seu dever biológico,

e as cores que patenteiam, por sua natureza,

só podem ser aquelas, e não outras.

Vermelhas, amarelas, cinza, fogo,

lilases, carmesins, azuis, violetas, assim, e só assim,

tudo conforme a sua natureza.

Ásperas são as folhas, macias, recortadas

ou não, tudo conforme ;

e o aprumo como tal,

ou rasteiras, ou leves, ou pesadas,

tudo no seu dever,

por sua natureza.

É como os animais.

Em cada qual, por sua natureza,

todo o dever se cumpre.

Comem, dejectam, dormem,

fazem amor nas horas competentes,

lutam, caçam, agridem,

rosnam à lua, trinam, assobiam,

escondem-se, espreitam, fogem, amarinham,

dançam, mudam de pele, agacham-se, disfarçam-se,

tudo conforme a sua natureza.

Assim eu penso, e amo, e sofro, e vou andando.

Tudo conforme a minha natureza.


António Gedeão

Proclamação
Julho 3, 2009

A natureza não desce

a contratos. Nem a vida

se mede pela razão.

A vida é toda mistério.

Quem largamente se deu

não ofendeu a justiça

mas viveu do coração.

cascata

Ruy Cinatti