Naufrágio
Agosto 15, 2011

Perdido no meio de uma tempestade
…que me rasgou as velas
me arrefeceu e me fez naufragar,
mergulhei no teu corpo revolto e ondulado,
acossado por piratas, adamastores
e outras gentes,
nadei por esse teu mar inconformado,
enfrentando as minhas nuvens de receios,
e as tuas promessas de ventos e correntes,
sedento, engoli a espuma que te enfeitava,
respirei o teu cheiro de maresia,
provei o teu sal de poesia,
que me aqueceu e me fez respirar,
mas veio depois uma onda
cobarde, repetida e traiçoeira
que me afogou, me fez desaparecer
e afundar nas palavras de um poema,
com um fim que apenas os dois
saberemos contar.

José Gabriel Duarte

Paisagem agreste
Agosto 2, 2011

Estavas sentado e havia uma paisagem agreste

nos teus olhos : as nuvens a prometerem chuva,

os espinheiros agitados com a erosão das dunas,

um mar picado, capaz de todos os naufrágios.

.

O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa –

era a força do vento contra o corpo do navio ; uma

miragem fatal da tempestade ; e o medo da tragédia

a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira

dos deuses com o mundo. Quando te levantaste,

.

disseste qualquer coisa muito breve que me feriu

de morte como a lâmina de um punhal acabado

de comprar. ( Se trovejasse, podia ser um raio

a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos).

.

Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas –

de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos

que as ondas espalham de madrugada pelas praias.

Mª Rosário Pedreira