Mar
Novembro 23, 2019

Na melancolia de teus olhos

eu sinto a noite se inclinar

e ouço as cantigas antigas

do mar.

.

Nos frios espaços de teus braços

eu me perco em carícias de água

e durmo escutando em vão

o silêncio.

.

E anseio em teu misterioso seio

na atonia das ondas redondas

náufrago entregue ao fluxo forte

da morte.

Mar e rochas

Vinicius de Moraes

Príncipe
Dezembro 9, 2016

Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e uma
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.

 

mulher-pensativa

Ana Hatherly      em    “Um Calculador de Improbabilidades”