Cantiga para não morrer
Dezembro 21, 2016

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

fugaz

Ferreira Gullar   in   “Dentro da Noite Veloz

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Balada da Neve
Fevereiro 28, 2016

Augusto Gil
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria,
há quanto tempo a não via…
…e que saudades, Deus meu!
.
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil

Floriram por engano as rosas bravas
Dezembro 18, 2014

Floriram por engano as rosas bravas
no inverno: veio o vento desfolhá-las…
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
as vozes com que há pouco me enganavas?

neve

Castelos doidos! Tão cedo caístes!…

Onde vamos, alheio o pensamento,

de mãos dadas? Teus olhos, que num momento

prescrutaram os meus, como vão tristes!

.

E sobre nós cai nupcial a neve,

surda, em triunfo, pétalas, de leve,

juncando o chão, na acrópole de gelos…

.

Em redor do teu vulto é como um véu!

Quem as esparze … quanta flor … do céu,

sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Camilo Pessanha

Que direi eu…
Outubro 28, 2010

Que direi eu de ti, de mim, de nós,

o imenso inacabado que nos perde…?

Que te espero nos dias que se afundam

em noites inquietas, solitárias…

 

Eu sei que o infinito imaginado

nada é mais do que isso, horas mortas,

suspensas no mistério dos minutos,

perdidas no horizonte insondável…

 

Sou um imenso campo aberto ao sol,

à neve, às intempéries do presente.

Tu ficas no recôndito sombrio,

escondes-te na letra de um poema…

Diana Sá