Novo Ano
Dezembro 31, 2013

Malta!

Ouçam a terra a girar!

Estremeçam, sente-se o ano a chegar!

Olhem, o nevoeiro denso

ávido e intenso, a vir do mar.

Preparem-se que a guerra é hoje.

Chegou ontem pela calada,

os castelos estão tomados,

os jardins amordaçados.

Acordem todos, alerta e bem

que o amanhã é uma traça

tão negra no futuro que nos colhe

que entre os dedos da desgraça

sem chegar nos ultrapassa.

Malta, todos na mesma? Arre!

Às armas, em pé, peito ao vento

que eu nem sei como aguento.

Mas nada foi diferente!

Povo dolente e tudo dormente!

Há tanto que começou

o tempo da incoerência

que eu ardo de impaciência.

Malta! Olhem o louco horizonte!

Pum! Ano Novo e agora?

Bom Ano? Há quem mereça?

Pum! Nevoeiro! Caiu a ponte!

De quem é esta cabeça?

Conceição Roque da Silveira

Nevoeiro
Novembro 27, 2013

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

define com perfil e ser

este fulgor baço da terra

que é Portugal a entristecer –

brilho sem luz e sem arder,

como o que o fogo-fátuo encerra.

.

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

nem o que é mal nem o que é bem.

( Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

.

É a hora!

nevoeiro

Fernando Pessoa

Espero
Fevereiro 1, 2011

 

Espero sempre por ti o dia inteiro,
quando na praia sobe, de cinza e oiro,
o nevoeiro
e há em todas as coisas o agoiro
de uma fantástica vinda.

Sophia

 

Uma homenagem a uma grande poetisa, quando o seu espólio foi doado aos Portugueses.

Ver claro
Setembro 18, 2008

Toda a poesia é luminosa, até

a  mais obscura.

O  leitor é que tem às vezes,

em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.

E  o nevoeiro nunca deixa ver claro.

Se  regressar

outra vez e outra vez

e  outra vez

a  essas  sílabas acesas

ficará cego de tanta claridade.

Abençoado seja se lá chegar.

 Eugénio de Andrade