Por todos os caminhos do mundo
Julho 26, 2015

A minha poesia é assim como uma vida que vagueia
pelo mundo,
por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar
num jardim nocturno,
ora um deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do oásis,
ora os pés cansados, sem forças para além.
Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado
de que a tempestade não lhe abalará o palácio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.
Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo
norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.
Não sei caminhos de cor.

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Fernando Namora

Aquilo que eu não fiz
Agosto 15, 2014

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

não fui eu que gastei

mais do que era para mim

não fui eu que tirei

não fui eu que comi

não fui eu que comprei

não fui eu que escondi

quando estavam a olhar

não fui eu que fugi

não é essa a razão

para me quererem moldar

porque eu não me escolhi

para a fila do pão

este barco afundou

quando alguém aqui chegou

não fui eu que não vi

.

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

talvez do que não sei

talvez do que não vi

foi de mão para mão

mas não passou por mim

e perdeu-se a razão

tudo o bom se feriu

foi mesquinha a canção

de esse amor a fingir

não me falem do fim

se o caminho é mentir

se quiseram entrar

não souberam sair

não fui eu quem falhou

não fui eu quem cegou

já não sabem sair

.

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

meu sono é de armas e mar

minha força é navegar

meu norte em contraluz

meu fado é vento que leva

e conduz

e conduz

e conduz

barco 2

Tiago Bettencourt