Talvez de noite
Novembro 27, 2016

À minha volta tudo envelheceu

como se fosse eu, e no entanto

uma casa, ou um espaço em branco

entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.

Pois nada

surge com a sua própria forma.

Digo ‘casa’, mas refiro-me a luas e umbrais,

a lembranças extenuadas,

às trevas do corpo, lúcidas,

latejando na obscuridade de quartos interiores.

E digo ‘palavras’ porque

não sei que coisa chamar

à mudez do mundo.

E digo  ‘sentido’ sufocado

sob o pensamento

tentando respirar

a golpes de coração,

agora que se desmorona a casa

sobre todas as palavras possíveis.

jardim-de-um-mosteiro_thumb

Manuel António Pina

1990
Setembro 15, 2011

Se soubesse o que procuro
saberia que água pedir neste momento
e a que árvore pertence
este rumor de folhas sob o vento.

De quanto quis saberia a entoação
a que o coração responde nos ardis
que a obscuridade entrega
quando o contágio da memória
me absolve do que nunca deveria
arrepender-me.

Quanto busco não só é indizível
como não tem refúgio certo
entre os ramos hostis do reencontro,

esse incêndio do acaso no ocaso.

Amadeu  Baptista