Astros
Janeiro 27, 2012

Aprendiz de avessos,

colhi lição de quem nada ensina

senão o talento de ser sem querer.

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A chuva me ensinou telhados

e anoiteci nas letras de um livro.

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A pedra me explicou a morte

no passo antecipado sobre a lápide.

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Num mundo em que amar

se faz de fúrias pequenas e ódios perenes

em ti derramei meu corpo

para habitar a sombra da água.

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Não importa quem dentro de mim  respira :

o amor é a noite

iluminando o relâmpago.

E eu não saberei nunca viver

de tanto te sonhar.

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Como um Sol

que apenas existe

na sua própria ardência,

eu sou só amando.

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A minha luz é um luar

à procura de uma outra Lua.

Mia Couto

 

isto vai
Julho 25, 2011

por noites de insónia e de alcatrão

por laranjais e lábios ressequidos

pelo desespero na voz e escuridão

isto vai caro amigo (…)

pelo cabo axial que liga a nossa esperança

pela luz dos cabelos pelo sal

pela palavra remo pela palavra ódio

isto vai caro amigo (…)

pelos carris do medo pelas árvores

pela inocência e fome pelos perigos

pelos sinais fraternos pelas lágrimas

isto vai caro amigo

pela dureza do espaço

e em jardins falsíssimos

isto vai caro amigo

João Rui de Sousa   Ça ira

Cuéntame como Vives, como vas Muriendo
Agosto 13, 2010

Cuéntame cómo vives;
dime sencillamente cómo pasan tus días,
tus lentísimos odios, tus pólvoras alegres
y las confusas olas que te llevan perdido
en la cambiante espuma de un blancor imprevisto.

Cuéntame cómo vives;
ven a mí, cara a cara;
dime tus mentiras (las mías son peores),
tus resentimientos (yo también los padezco),
y ese estúpido orgullo (puedo comprenderte).

Cuéntame cómo mueres;
nada tuyo es secreto:
la náusea del vacío (o el placer, es lo mismo);
la locura imprevista de algún instante vivo;
la esperanza que ahonda tercamente el vacío.

Cuéntame cómo mueres;
cómo renuncias -sabio-,
cómo -frívolo- brillas de puro fugitivo,
cómo acabas en nada
y me enseñas, es claro, a quedarme tranquilo.

Gabriel Celaya

Não posso adiar o coração
Dezembro 8, 2008

Não posso adiar o amor

.

Não posso adiar o amor para outro século

não posso

ainda que o grito sufoque na garganta

ainda que o ódio estale e crepite e arda

sob montanhas cinzentas

e  montanhas cinzentas

.

Não posso adiar este abraço

que é uma arma de dois gumes

amor e  ódio

.

Não posso adiar

ainda que a noite pese séculos sobre as costas

e  a aurora indecisa demore

não posso adiar para outro século a minha vida

nem o meu amor

nem o meu grito de libertação

.

Não posso adiar o coração

docecoracao

 António Ramos Rosa