A Memória
Setembro 16, 2020

Por entre vendavais desfeitos,

procuro no antro da memória,

procuro por sítios inóspitos,

porque nos perdemos no fundir do tempo!

.

Arrastam-se máscaras, esfinges,

que não consigo decifrar,

mas tu és a mesma menina que sempre foste,

o passar dos anos fez-te ainda mais bonita,

fez-te sedutora.

.

Queria perder-me nos teus braços,

acordar e renascer das cinzas,

todo eu ainda tremo ao ouvir os teus passos!

.

Por entre muralhas e sombras que nos enlaçam no nevoeiro,

duas faces, olhos nos olhos,

os meus aproximam-se dos teus,

os meus lábios secam as tuas lágrimas,

beijo-te os olhos,

acabam as tuas mágoas prisioneiras do passado!

meu príncipe

Daniel  Dias

Eu queria
Agosto 21, 2020

Eu queria ter o tempo e sossego suficientes

para não pensar em coisa nenhuma,

para nem me sentir viver,

para só saber de mim nos olhos dos outros.

mulherrosa

Alberto Caeiro   em   Poemas Inconjuntos

Sementes
Junho 20, 2020

Olhos,

vale tê-los,

se, de quando em quando,

somos cegos

e o que vemos

não é o que olhamos

mas o que o olhar semeia no mais denso escuro.

.

Vida

vale vivê-la

se, de quando em quando,

morremos

e o que vivemos

não é o que a Vida nos dá

nem o que dela colhemos

mas o que semeamos em pleno deserto.

Mia Couto

Na melancolia de teus olhos
Fevereiro 14, 2020

Na melancolia de teus olhos
eu sinto a noite se inclinar
e ouço as cantigas antigas
do mar.
.
Nos frios espaços de teus braços
eu me perco em carícias de água
e durmo escutando em vão
o silêncio.
.
E anseio em teu misterioso seio
na atonia das ondas redondas.
Náufrago entregue ao fluxo forte
da morte.

Vinicius de Moraes

Versos de Natal
Dezembro 25, 2019

Espelho, amigo verdadeiro,
tu refletes as minhas rugas,
os meus cabelos brancos,
os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
mestre do realismo exato e minucioso,
obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
penetrarias até o fundo desse homem triste,
descobririas o menino que sustenta esse homem,
o menino que não quer morrer,
que não morrerá senão comigo,
o menino que todos os anos na véspera do Natal
pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira    em    “Lira dos cinquenta anos”, 1940

Mar
Novembro 23, 2019

Na melancolia de teus olhos

eu sinto a noite se inclinar

e ouço as cantigas antigas

do mar.

.

Nos frios espaços de teus braços

eu me perco em carícias de água

e durmo escutando em vão

o silêncio.

.

E anseio em teu misterioso seio

na atonia das ondas redondas

náufrago entregue ao fluxo forte

da morte.

Mar e rochas

Vinicius de Moraes

Como na montanha
Julho 3, 2019

Não me perguntes nada. Só teus olhos

olhando-me, respondam confiados.

E tuas mãos, sentindo os meus cuidados,

saibam trazer promessas e consolos.

.

Ou diz, pois oiço tudo. A tua voz

é fluxo mineral, nem é palavras,

tal, na montanha, sebes, trilhos, lavras:

malhas na pele de um ser grande, feroz.

.

Viver é isto, como, na montanha,

o sol, as estações, que vêm, que vão,

um sono onde trabalha mão estranha,

.

urdindo sonhos e destruição.

Por isso, não perguntes. Tua mão

se pouse em mim, com o olhar me banha.

agreste

Ricardo Lima

Alegres campos, verdes arvoredos
Abril 22, 2019

Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
que em vós os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos
compostos de concerto desigual;
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos.

E pois já me não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas,
nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
regar-vos-ei com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem.

6409flores

Luiz de Camões

Bié – o regresso falhado a casa
Março 2, 2019

A casa alberga o mapa da linguagem

o relógio antigo da avó

a ampulheta imemorial

que conta os grãos perdidos do tempo.

A casa aloja o próprio tempo

a raiz dos primeiros passos

aqueles que me casaram

com a respiração do mundo.

.

Hoje ao cair da tarde

no controlo militar de Silva Porto – Gare

eles não me deixaram passar

“Se você passas daqui, vais para a morte”-

disseram.

.

Fiquei a olhar o cano das espingardas

o rumor dos gatilhos na face

atravessei a minha infância em segundos

com os olhos húmidos.

Eu vi ao longe o meu passado

perdido na grande noite escura.

Depois daquele dia

nunca mais fui o mesmo

nunca mais pertenci

a mim próprio.

MINOLTA DIGITAL CAMERA

António Costa Silva

Musa ausente
Novembro 24, 2018

Falta a luz dos teus olhos na paisagem…
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam, à procura
da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
muram a tua ausência.
Sem transparência,
o mesmo rio que te reflectiu
afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por te não ver, a vida anoiteceu

à hora em que teria amanhecido.

Miguel Torga