Musa ausente
Novembro 24, 2018

Falta a luz dos teus olhos na paisagem…
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam, à procura
da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
muram a tua ausência.
Sem transparência,
o mesmo rio que te reflectiu
afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por te não ver, a vida anoiteceu

à hora em que teria amanhecido.

Miguel Torga

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Os ombros suportam o mundo
Novembro 18, 2018

anjo

Os ombros suportam o mundo.
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos…

…Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

Beijo
Novembro 12, 2018

Pelo rio do meu corpo

o barco à vela dos teus olhos.

O beijo amadurece.

Que fazer

das palavras que sobram?

Rosa Lobato de Faria

Dorme, meu amor
Setembro 22, 2018

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais

este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.

Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou

há muito tempo: e o vento amaciou: e a minha mão

desvia os passos do medo. Dorme, meu amor –

.

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste

e pode levantar-se como um pássaro assim que

adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra

não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes

e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

.

agora e sossega a porta está trancada: e os fantasmas

da casa que o jardim devorou andam perdidos

nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

.

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e

nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já

olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui

de guarda aos pesadelos a noite é um poema

que conheço de cor e vou cantar-to até adormecer

dreaming_myself_away_by_bellatina

Mª  Rosário  Pedreira

Mar 1
Agosto 22, 2018

Bebo-o a colherinhas de olhos

na taça da manhã.

E nem ele se esgota

nem eu me sacio.

praia 2

Luísa  Dacosta

Ninguém
Junho 24, 2018

Ninguém, meu amor,
ninguém como nós conhece o sol.
Podem utilizá-lo nos espelhos,
apagar com ele
os barcos de papel nos nossos lagos,
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas,
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado.
.
Mas ninguém, meu amor,
ninguém como nós conhece o sol.
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.

sol nas mãos

Sebastião da Gama

Carta à minha filha
Junho 4, 2018

 

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas – é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.
E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

menina

Ana Luísa Amaral,   em    ‘Imagias (Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)’

Tu virás
Maio 29, 2018

Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

cravo branco

Eugénio de Andrade

barcarola
Maio 10, 2018

quero falar aqui do meu amor, quero falar

quando o silêncio é de oiro ensimesmado,

o tempo é de ferrugem,

e o espaço é de água na longa solidão

riscada pelas aves.

.

pobre relento dos sonhos que sonhámos:

passámos por aqui, os olhos rasos de luz

e o coração embalado por um fio de música

a diluir-se no crepúsculo

com as águas morosas, a

.

sombra a carregar-se ao rés das casas, as

rosas semicerrando-se numa leve respiração.

águas do douro que corriam, para onde

levavam as lembranças como barcos

que se esquecessem do seu rumo?

.

leve brisa do mar que nos chegava,

salina sem sabermos

que anunciava as lágrimas, de que fundo

dos mares atormentados arrancava?

cais humilde das cargas, quem diria

.

que ali só atracavam desventuras?

ali, só quero falar desta golfada a desprender-se

de sonho e oiro a que te misturavas

num ledo encantamento entre rumores

que se apagavam fulvos em surdina

.

e sílabas, sílabas que na alma a pouco e pouco

emudeciam comovidas, noite, ó noite

que cobriste essas horas do teu luto,

quando será manhã para que seja

outra tarde outra vez essa harmonia?

vem

Vasco Graça Moura

Cantiga, partindo-se
Março 19, 2018

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

adeus

João Roiz de Castel-Branco