O silêncio
Maio 31, 2017

O silêncio dói como pedra na língua.

A vida por vezes não tem esperança nem sentido,

tudo parece em paz e no entanto o amor

tem sempre uma mais fria recompensa.

Desde a primeira flor, pouco ainda mudou

essa face da noite com a face do Homem.

O rouxinol canta, sim, a dor do Homem canta

e à força de a esquecer aprende-se a esquecer.

O silêncio é de passos que atormentam a noite

e que ao fundo do fogo vão buscar a luz

para fazer arder as horas até ao orvalho

onde a manhã se ri com os dentes da água.

Às vezes vagueia pelo pomar da noite

uma égua perdida numa nesga de luz,

é a dor que pergunta e procura uma casa

junto à erva do peito, sob os olhos calados.

novembro2

Joaquim Pessoa

On ne peut me connaître
Maio 13, 2017

On ne peut me connaître
mieux que tu me connais.
.
Tes yeux dans lesquels nous dormons
tous les deux
ont fait à mes lumières d’homme
un sort meilleur qu’aux nuits du monde.
.
Tes yeux dans lesquels je voyage
ont donné aux gestes des routes
un sens détaché de la terre.
.
Dans tes yeux ceux qui nous révèlent
notre solitude infinie
ne sont plus ce qu’ils croyaient être.
.
On ne peut te connaître
mieux que je te connais.

neve

Paul Éluard

Aquela triste e leda madrugada
Março 17, 2017

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de uma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
se acrescentaram em grande e largo rio;

Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.

Luiz de Camões

Soneto de Inês
Março 11, 2017

Dos olhos corre a água do Mondego,

os teus cabelos parecem choupais.

Inês! Inês! Rainha sem sossego

dum rei que por amor não pode mais.

.

Amor imenso que também é cego,

amor que torna os homens imortais.

Inês! Inês! Distância a que não chego,

morta tão cedo por viver demais.

.

Os teus gestos são verdes, os teus braços

são gaivotas pousadas no regaço

dum mar azul turquesa intemporal.

.

As andorinhas seguem os teus passos

e tu morrendo com os olhos baços.

Inês! Inês! Inês de Portugal.

ines-de-castro

Ary dos Santos

.

2º Soneto de Amor da Hora Triste
Janeiro 11, 2017

 

Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro

do que tu – não deixes fechar-me os olhos

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro

.

como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se, então, tiveres coragem,

fecha-me os olhos com um beijo. Eu, Marco Pólo,

.

farei a nebulosa travessia

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca

.

nele o mar inteiro, o porto, a ria…

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

Mar azul

Álvaro  Feijó

As minhas mãos
Dezembro 15, 2016

As minhas mãos procuram o teu rosto
e perdem-se no ar, desesperadas;
percorrem o caminho do desgosto
e caem a teus pés, extenuadas.
.
Os teus olhos ardentes, de sol-posto,
reacendem as brasas desmaiadas
que jazem no meu peito, encantadas,
à espera de um beijo, de um gosto.
.
Eu quero-te, amor, como tu queres
o calor dos meus lábios, se puderes
ajudar-me a vencer o desafio.
.
As minhas mãos procuram-te, esperam.
Em todos os castelos que fizeram,
tu vives como um sonho, e eu confio.
tempo 3

Diana Sá

Príncipe
Dezembro 9, 2016

Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e uma
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.

 

mulher-pensativa

Ana Hatherly      em    “Um Calculador de Improbabilidades”

 

Tes yeux
Dezembro 3, 2016

Tes yeux sont si profonds qu’en me penchant pour boire
j’ai vu les soleils y venir se mirer
s’y jeter à mourir tous les désespérés.
Tes yeux sont si profonds que j’y perds la mémoire.

Louis Aragon

Canção de Amor
Outubro 14, 2016

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.
.
Por isso canto. Alegre ou triste, canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.
.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.
.
Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.
.
Assim quero cantar-te, meu amor,
para além da morte, para além de tudo.

margaridas



Joaquim Pessoa   
em    ‘Canções de Ex-Cravo e Malviver’

Ad usum
Setembro 8, 2016

O meu ofício é de palavras
que só estremecem ao rumor
do amor.
.
O meu ofício é de missão
secreta, sob a capa do ar:
Lembrar.
.
O meu ofício desconhece
qualquer das formas de folgar:
sonhar?
.
No meu ofício é que se aprende
por dentro – terra e ultramar –
a olhar.
.
Sua alegria é de um minuto
e nada a pode compensar:
cantar.
.
Entre um minuto e outro perpassam
nuvens de tamanho esperar:
durar.
.
O meu ofício é de saber
morrer, de nas pedras gravar:
passar.

natureza31

Lélia Coelho Frota