Sete
Junho 6, 2017

Pelas sete da tarde

é que o sonho começa:

a tua mão na minha

e a minha cabeça

encostada ao teu ombro.

Depois é o assombro

do amor reencontrado

a sós no nosso canto.

O silêncio e o espanto

a paixão o segredo

a recusa do medo

o meu falar alegre

o teu livro tão sério

a música tão leve

o instante tão breve

o sono e o mistério.

.

Às sete da manhã

é que o sonho termina.

E afrontamos o dia

a tua mão na minha

um trejeito na alma

um tremido na boca

até que a multidão

me leva e me sufoca

e nos desprende e solta

os meus dedos nos teus.

.

Há um barco que chega

um comboio que chora.

Num mar de gente à deriva

eu náufraga da hora

ergo um braço no ar

p’ra te dizer adeus.

beijinho

Rosa Lobato de Faria

No meu país
Agosto 3, 2016

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

O Português paga calado cada prestação

Para banhos de sol nem casa se precisa

E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa

e o colégio do ódio é patriótica organização

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe

atenta à gravidade do momento

Ruy Belo

  Morte ao Meio-Dia

Sonho
Fevereiro 9, 2014

Um cair de cabelos nos teus ombros,

um suspiro preso à lembrança que

ficou, um brilho que se demora nos

olhos à janela, um eco que não passa

.

na memória de um murmúrio, o

abraço em que o tempo se suspende,

a voz que dança por entre ruídos e

silêncio, as mãos que não se libertam

.

num gesto de despedida, lábios que

outros lábios procuram, uma luz

que alastra na sombra que desce,

.

e uma sombra que se ilumina quando

a noite já cresce: tu, sonho que

faz real a realidade em que te sonho.

ahcravo-dscn2727-por-sol-bico

Nuno  Júdice

Ternura 2
Maio 29, 2011

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada…

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio…

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,


para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira

Os ombros suportam o mundo
Janeiro 24, 2011

Os ombros suportam o mundo

 Chega um tempo em que não se diz mais: Meu Deus.

 Tempo de absoluta depuração.

 Tempo em que não se diz mais: meu amor.

 Porque o amor resultou inútil.

 E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

 E o coração está seco.

 Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

 Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

 E nada esperas de teus amigos.

 Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

 Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

 As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

 provam apenas que a vida prossegue

 e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo

 prefeririam (os delicados) morrer.

 Chegou um tempo em que não adianta morrer.

 Chegou um tempo que a vida é uma ordem.

 A vida apenas, sem mistificação.


Drummond de Andrade