Na melancolia de teus olhos
Fevereiro 14, 2020

Na melancolia de teus olhos
eu sinto a noite se inclinar
e ouço as cantigas antigas
do mar.
.
Nos frios espaços de teus braços
eu me perco em carícias de água
e durmo escutando em vão
o silêncio.
.
E anseio em teu misterioso seio
na atonia das ondas redondas.
Náufrago entregue ao fluxo forte
da morte.

Vinicius de Moraes

Mar
Novembro 23, 2019

Na melancolia de teus olhos

eu sinto a noite se inclinar

e ouço as cantigas antigas

do mar.

.

Nos frios espaços de teus braços

eu me perco em carícias de água

e durmo escutando em vão

o silêncio.

.

E anseio em teu misterioso seio

na atonia das ondas redondas

náufrago entregue ao fluxo forte

da morte.

Mar e rochas

Vinicius de Moraes

Onda a onda
Agosto 28, 2019

Onda a onda o desejo no

teu rosto de mágoas e de torres

levemente descaídas para

onde não sei se nasces ou se morres

quando os meus dedos cítara a cítara

tocam a música do teu corpo nu

lá onde os teus mistérios serão meus

e chegarei às margens onde tu

talvez então me digas quem é Deus.

Mar e rochas

Manuel Alegre

Mar adentro
Junho 16, 2019

Deixarei vento trazer areia molhada

moldando dunas sobre a praia peito

lençóis marinhos de bruma salgada

cobrindo-me vagas em húmido leito

.

Deixarei o sol aquecer a azul manta

brilho líquido sobre ninho aquático

cobertas de espuma brancura tanta

onda em fúria doce marear estático

.

Deixarei o céu fazer-se em mim mar

vaga mais rebelde possa acontecer

todos os sentidos me deixe libertar

em onda gigante na praia eu morrer

.

Vento chuva como lágrimas maresia

na morna loucura desta praia deserta

possam murmúrios mar ser sinfonia

.

A praia sentida num olhar imensidão

Vaga uma a uma murmura secreta

Mar adentro em mim húmida solidão

asruasdopensamento

Ana Bárbara de Santo António

 

Estrada
Fevereiro 10, 2018

A tua história entristece-me…

À luz do que sei hoje,

a sombra de uma censura escurece

o longo rol de problemas

que vivemos há uma eternidade.

Desconheci-a muito tempo.

Não entendia o teu rancor.

Depois, que fazer da estrada rota

que vai de mim a ti?

.

Como posso mostrar-te o que me aflige

se as minhas tentativas acabam

numa parede de aço

erguida entre nós?

Navego às cegas entre ondas vigorosas

e vagas de calmaria.

Não consigo avaliar se

e quanto precisas de mim.

Ajudas-me?

nevoeiro

Diana Sá

Vieste como um barco carregado de vento
Novembro 28, 2017

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

mar 4

Maria do Rosário Pedreira    em    ‘O Canto do Vento nos Ciprestes’

Que culpa terão as ondas?
Janeiro 6, 2016

… Que culpa terão as ondas
dos movimentos que façam?
– São os ventos que as impelem
e sulcos profundos traçam.
… Aos ventos quem lhes ordena
que rasguem rugas no mar?
– São as nuvens inquietas
que os não deixam sossegar.
… E as nuvens, almas de névoa,
porque não param, coitadas?
– É que as asas das gaivotas
as trazem desafiadas.
… Mas as asas das gaivotas,
o cansaço há-de detê-las!
– Juraram buscar descanso
nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
e não tombam nem se alcançam,
as asas das pobrezinhas
baldamente se cansam…
baldamente se cansam,
baldamente palpitam!…
As nuvens, por fatalismo,
logo com elas se agitam;
os impulsos que elas dão
arrastam as ventanias;
as vagas arfam nos mares
em macabras fantasias…
.
… Assim as almas inquietas…
Prisioneiras de ansiedades,
mal que se erguem da terra,
naufragam nas tempestades.

espuma

Reinaldo Ferreira

Tu vinhas
Dezembro 8, 2015

Não me fizeste sofrer
mas esperar.

Naquelas horas
emaranhadas, cheias
de serpentes,
quando
a alma me caía e eu me afogava,
tu vinhas-te aproximando,
tu vinhas nua e arranhada,
tu chegavas ensanguentada ao meu leito,
noiva minha,
e então
caminhávamos toda a noite dormindo
e, quando acordávamos,
estavas intacta e nova,
como se o vento grave dos sonhos
acendesse de novo
o fogo da tua cabeleira
e em trigo e prata submergisse
teu corpo até torná-lo deslumbrante.

Eu não sofri, meu amor,
esperava-te apenas.
Tu precisavas de mudar de coração
e de olhar
depois de tocares a profunda
zona do mar que meu peito te entregou.
Precisavas de sair da água
pura como uma gota erguida
por uma onda nocturna.

Noiva minha, tu precisaste
de morrer e de nascer, eu esperava-te.
Não sofri a procurar-te,
sabia que virias,
mas outra, com o que adoro
da mulher que não adorava,
com teus olhos, tuas mãos e tua boca,
mas com outro coração,
que amanheceu a meu lado
como se sempre tivesse estado ali
para continuar comigo para sempre.

mulher-caminhar
Pablo Neruda, em “Os Versos do Capitão“.

Uma após uma
Junho 23, 2015

Uma após uma as ondas apressadas
enrolam o seu verde movimento
e chiam a alva ‘spuma
no moreno das praias.
.

Uma após uma as nuvens vagarosas
rasgam o seu redondo movimento
e o sol aquece o ‘spaço
do ar entre as nuvens ‘scassas.

.

Indiferente a mim e eu a ela,
a natureza deste dia calmo
furta pouco ao meu senso
de se esvair o tempo.

.

Só uma vaga pena inconsequente
pára um momento à porta da minha alma
e após fitar-me um pouco
passa, a sorrir de nada.

praia 2

Ricardo Reis   em   “Odes”

Quem me quiser
Junho 17, 2015

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros,
há-de saber os beijos e as uvas,
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos,
a nudez clamorosa dos meus dedos,
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
– ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

Rosa Lobato Faria