Caderno 1
Março 31, 2019

Quando me perco de novo neste antigo

caderno de capa preta de oleado –

que um dia rasguei com fúria e que um amigo

folha a folha recolou com vagar e paciência –

.

tudo me dói ainda como faca e me corta

pois diante de mim estão como sussurro e floresta

as longas tardes as misturadas noites

onde divago e divagam incessantemente

os venenosos perfumes mortais da juventude

.

E dói-me a luz como um jardim perdido

neve

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poema do Amigo aprendiz
Novembro 30, 2018

Quero ser teu amigo.

Nem de mais, nem de menos.

Nem tão longe, nem tão perto.

Na medida mais precisa que eu puder.

.

Mas amar-te como próximo, sem medida

e ficar sempre em tua vida

da maneira mais discreta que eu souber.

.

Sem tirar-te a liberdade.

sem jamais te sufocar.

Sem forçar a tua vontade.

.

Sem falar, quando for hora de calar

e sem calar, quando for hora de falar.

Nem ausente, nem presente por demais,

simplesmente, calmamente, ser-te paz.

.

É bonito ser amigo, mas, confesso,

é tão difícil aprender…

Por isso, eu te peço paciência.

.

Vou encher este teu rosto

de alegrias, lembranças!

Dá-me tempo

de acertar nossas distâncias!!!

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José Fernando de Oliveira

Esta gente cujo rosto
Julho 8, 2014

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Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pátria
Maio 15, 2013

Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

.

Pelos rostos de silêncio e de paciência

que a miséria longamente desenhou

rente aos ossos com toda a exactidão

do longo relatório irrecusável

.

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

.

E pela limpidez das tão amadas

palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo das palavras

donde se erguem as coisas nomeadas

Pela nudez das palavras deslumbradas

.

– Pedra rio vento casa

pranto dia canto alento

espaço raiz e água

Ó minha pátria e meu centro

.

me dói a lua me soluça o mar

e o exílio se inscreve em pleno tempo

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Camões e a Tença
Abril 25, 2013

Irás ao Paço. Irás pedir que a tença

seja paga na data combinada

Este país te mata lentamente

País que tu chamaste e não responde

País que tu nomeias e não nasce

.

Em tua perdição se conjuraram

calúnias desamor inveja ardente

e sempre os inimigos sobejaram

a quem ousou seu ser inteiramente

.

E aqueles que invocaste não te viram

porque estavam curvados e dobrados

pela paciência cuja mão de cinza

tinha apagado os olhos no seu rosto

.

Irás ao Paço irás pacientemente

pois não te pedem canto mas paciência

.

Este país te mata lentamente

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Se cada dia cai
Abril 30, 2012

Se cada dia cai, dentro de cada noite
há um poço
onde a claridade está presa.
.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra

e pescar luz caída

com paciência.

Pablo Neruda

Vida 2
Julho 21, 2011

 Depois de algum tempo
aprendemos a diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

Aprendemos que
amar não significa apoiar-nos e que companhia nem sempre significa segurança.

Aprendemos que beijos não são
promessas.

E começamos a aceitar
as derrotas com a cabeça erguida.

Aprendemos a construir a nossa estrada no hoje,
porque o amanhã é incerto…

Depois de algum tempo aprendemos que o sol
queima se ficarmos expostos por muito tempo.

E aprendemos que não importa o quanto nós nos
importamos, algumas pessoas simplesmente não se importam…

E aprendemos que não importa o quão boa seja uma
pessoa, ela vai ferir-nos de vez em quando e precisamos perdoá-la por
isso.

Aprendemos que falar pode
aliviar as nossas dores emocionais.

Descobrimos que levamos anos para construir
confiança e apenas segundos para destruí-la, e que podemos fazer coisas num
instante, das quais nos podemos arrepender o resto da vida.

Aprendemos que as verdadeiras amizades continuam
a crescer mesmo a longas distâncias.

E O QUE IMPORTA NÃO É O QUE TEMOS NA VIDA, MAS
QUEM TEMOS NA VIDA.

E os amigos são a família que nos permitiram
escolher.
Percebemos que
as pessoas que mais amamos na vida são levadas de nós muito depressa, por isso
devemos deixá-las sempre com palavras de afecto, porque pode ser a última vez
que as vemos.

Descobrimos que levamos muito tempo para nos
tornarmos na pessoa que queremos ser, mas que o tempo é curto.

Aprendemos que não importa onde já chegámos, mas
para onde vamos, e se soubermos isso, qualquer lugar serve.

Aprendemos que, ou controlamos as nossas acções
ou elas acabam a controlar-nos.

E que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, porque em
todas as situações existem sempre dois lados.

Aprendemos que paciência requer muita prática.

Descobrimos que algumas vezes as
pessoas de que menos esperamos são aquelas que nos estendem a mão e ajudam a
levantar quando caímos.

Descobrimos
que só porque alguém não nos ama da forma que nós gostaríamos, isso não
significa que esse alguém não nos ame com tudo o que pode.

Aprendemos que nem sempre é suficiente ser
perdoado por alguém, algumas vezes temos que perdoar-nos a nós próprios.

Aprendemos que
não importa em quantos pedaços o nosso coração foi partido, o mundo não pára
para que o possamos consertar.

Aprendemos que o tempo não é algo que possa
voltar para trás.

Aprendemos que
somos realmente fortes.

E que a
vida tem muito valor e que nós temos muito valor perante a
vida!

William  Shakespeare