Apontamento
Março 13, 2020

Vida – o único meio
de se revestir de folhagem,
recuperar o fôlego na areia,
levantar voo batendo as asas;
.
ser cão
ou afagar-lhe o pêlo quente;
.
distinguir a dor
de tudo o que não a é;
.
caber nos acontecimentos,
perder-se nas paisagens,
procurar o mais ínfimo dos enganos.
.
Ocasião excepcional
para, por um instante, recordar
o que se conversou
junto do candeeiro apagado;
.
pelo menos uma vez,
tropeçar na pedra,
molhar-se na chuva,
perder as chaves na relva;
.
seguir com o olhar uma faísca no vento
.
e sem parar algo de importante
não saber.

Wislawa Szymborska

Hoje
Fevereiro 5, 2020

Hoje que a tarde é calma e o céu tranqüilo,
e a noite chega sem que eu saiba bem,
quero considerar-me e ver aquilo
que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo
que fui quem foi aquilo em torno meu,
salvo o que o vago e incógnito desejo
se ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
minha atenção sobre quem fui de mim,
e nada de verdade em mim albergo
salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
segui por dois caminhos par a par.
Fui com o mundo, parte da paisagem;
comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso.
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
vários trazidos de outros mundos, e
no mesmo ponto espacial sensível
que sou eu, sendo eu por me ’star aqui ?

Serei eu, porque todo o pensamento
podendo conceber, bem pode ser,
um dilatado e múrmuro momento,
de tempos-seres de quem sou o viver ?

fp

 Fernando Pessoa

Entre mim e a vida
Março 8, 2019

Já não escrevo sem algo entre mim e a vida:

olho a paisagem,

há inúmeros campos,

regresso a casa pelas estradas de terra,

tropeço em cada pedra.

O sangue do horizonte circula

nas minhas veias,

mas canto a natureza entre mim e a vida.

.

Se volto ao refúgio das paredes domésticas,

surge o teu semblante

no percurso

(é uma realidade,

esqueci as personagens fictícias).

Quero dizer o rosto do último lugar

habitável

e pronuncio o teu nome, perdido.

.

Quando era menos incompleto

trabalhava os poemas

até ao silêncio,

para que dissessem o rumor inaudito,

agora vêm das nascentes

sem a contagem das sílabas.

Consciente da origem e do fim,

de nada separado,

digo milhares de palavras entre mim e a vida.

natureza_rio

Joel  Henriques

Musa ausente
Novembro 24, 2018

Falta a luz dos teus olhos na paisagem…
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam, à procura
da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
muram a tua ausência.
Sem transparência,
o mesmo rio que te reflectiu
afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por te não ver, a vida anoiteceu

à hora em que teria amanhecido.

Miguel Torga

Soneto de Véspera
Fevereiro 9, 2018

Quando chegares e eu te vir chorando

de tanto te esperar, que te direi?

E da angústia de amar-te, te esperando

reencontrada, como te amarei?

.

Que beijo teu de lágrimas terei

Para esquecer o que vivi lembrando

e que farei da antiga mágoa quando

não puder te dizer por que chorei?

.

Como ocultar a sombra em mim suspensa

pelo martírio da memória imensa

que a distância criou – fria de vida

.

imagem tua que  eu compus serena

atenta ao meu apelo e à minha pena

e que quisera nunca mais perdida…

pensativa

Vinicius de Moraes

Suavidade
Janeiro 22, 2018

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
e tudo se entender —
tudo metade
de sentir e de ver…
Não digas nada.
Deixa esquecer.

Talvez que amanhã
em outra paisagem
digas que foi vã
toda essa viagem
até onde quis
ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz.
Não digas nada!

Fernando Pessoa    em    “Cancioneiro”

Paisagem
Agosto 9, 2017

Cega-me a distância azul sem par
o gesto bondoso da sombra sobre o banco
a presença de algum deus sobre a paisagem
o silêncio íntimo da lonjura
um poema em estado bruto
na curva da viagem.

Maria Isabel Fidalgo

Abdicação
Abril 1, 2016

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
e chama-me teu filho. Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
o meu trono de sonhos e cansaços.
.
Minha espada, pesada a braços lassos,
em mãos viris e calmas entreguei;
e meu ceptro e coroa – eu os deixei
na antecâmara, feitos em pedaços.
.
Minha cota de malha, tão inútil,
minhas esporas de um tinir tão fútil,
deixei-os pela fria escadaria.
.
Despi a realeza, corpo e alma,
e regressei à noite antiga e calma
como a paisagem ao morrer do dia.

alone

Fernando Pessoa

Vesperal
Setembro 7, 2015

E, contudo, é bonito
o entardecer.
A luz poente cai do céu vazio
da ramagem
e fica esparramada em cada folha.
Imóvel, a paisagem
parece adormecida
nos olhos de quem olha.
A brisa leva o tempo
sem destino.
E o rumor citadino
ondula nos ouvidos
distraídos
dos que vão pelas ruas caminhando
devagar
e como que sonhando,
sem sonhar…

por do sol 3

Miguel Torga

De novo a claridade
Abril 4, 2015

Veio de novo a Primavera pelo labirinto das ruas,

mas acordou a paisagem sem demora.

É um tempo à medida dos habitantes da cidade,

conhece os seus percursos

ao pormenor.

.

Não veio em voo altivo da aurora indiferente,

seguiu por avenidas

onde não a conhecem,

por becos onde não a esperavam.

Como se perdem sem conta os passos dos transeuntes

em diversas vias

mas encontram sempre a claridade…

.

Fez de cada varanda uma falésia sobre o oceano,

de cada ilha um novo arquipélago

sem sombras,

é a alma comum da urbe.

Não está acompanhado quem se encontra acompanhado,

mas quem recebeu a Primavera

de verdade.

Por vielas onde se dissimulam criminosos,

por alamedas

em que as árvores são fantasmas

ameaçadores,

não há quem a não tenha acolhido em sua casa.

E a luz cobriu o céu à mesma hora.

pessegueiro

Joel  Henriques    em    Terra Prometida