Estranho mal
Setembro 9, 2017

Procuro o Paraíso.

e nasce, em mim, a mágoa.

Estranho mal o meu,

o mal da poesia!

Surdez de não ouvir senão a água…

Cegueira de não ver senão o dia.

pedro-homem-de-mello-blogue

Pedro Homem de Mello    em    “Expulsos do governo da cidade

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Voz
Julho 1, 2013

Era uma voz que doía,

mas ensinava.

Descobria,

mal o seu timbre se ouvia

no silêncio que escutava.

.

Paraísos, não havia.

Purgatórios, não mostrava.

Limbos, sim, é que dizia

que os sentia,

pesados de cobardia,

lá na terra onde morava.

.

E morava neste mundo

aquela voz.

Morava mesmo no fundo

dum poço dentro de nós.

penumbra

Miguel  Torga

Lua
Março 21, 2011

Se for possível, manda-me dizer:

– É  lua cheia. A casa está vazia.-

Manda-me dizer, e o paraíso

há-de ficar mais perto, e mais recente

me há-de parecer teu rosto incerto.

Manda-me buscar, se tens o dia

tão longo como a noite. Se é verdade

que sem mim só vês monotonia.

E  se te lembras do brilho das marés

e  de alguns peixes rosados numas águas

e  dos meus pés molhados, manda-me dizer:

– É  lua nova. –

E  revestida de luz te volto a ver.

Hilda  Hilst

Viagem
Março 5, 2009

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Aparelhei o barco da ilusão

e  reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

o  mar…

( Só nos é concedida

esta vida

que temos ;

e  é nela que é preciso

procurar

o  velho paraíso

que perdemos ).

….

Prestes, larguei a vela

e  disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

a  revolta imensidão

transforma dia a dia a embarcação

numa errante  e  alada sepultura…

Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura,

o  que importa é partir, não é chegar.

 

Miguel Torga

As palavras
Janeiro 22, 2009

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho  apenas.

………

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam :

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

………

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e  são a noite.

E  mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

………

Quem as escuta ? Quem

as  recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras ?

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 Eugénio de Andrade