Cantiga, partindo-se
Março 19, 2018

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

adeus

João Roiz de Castel-Branco

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Chove sempre
Dezembro 12, 2017

Chove sempre quando partes…

Há sempre aviões

que passam por aonde tu vais

Voo para Bruxelas, porta nº 3,

diz a voz

em línguas diferentes,

sucessivamente,

a voz tornada europeia

nascida dos sítios

p’ra onde te levam

aviões de alumínio

.

Chove sempre…

E o motor do carro

que me traz de volta

replica na garganta

o motor tremendo

do teu avião

que arranha no chão

como unha em parede

sentida sem corpo,

na respiração,

no cerne incorpóreo

da vida que oscila e suspende,

que acende e apaga

nas luzes que cruzam

na tua figura

.

Na retina, a rodar

em círculo infernal

fica a mesma imagem

das outras partidas

noutros aviões;

de costas, a gabardine,

a pasta na mão,

o chapéu de chuva,

porque chove sempre…

.

Na minha cabeça

vazia, aquática

martela periódico

presente e real,

futuro e destino:

o limpa pára-brisas

porque chove sempre

quando partes sempre

chuva

Manuela Morgado

Plateia
Outubro 22, 2013

Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
a não ser conivente
na farsa do presente
posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
nem talvez a mais certa,
a da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
do que presta
e não presta
nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
quotidiana.
Esta comédia desumana
e triste,
que cobre de soturna maldição
a própria indignação
que lhe resiste.

Morte
MIGUEL TORGA   em  CÂMARA ARDENTE

Ondas
Março 2, 2010

As ondas de partida e de chegada,

sozinhas, isoladas, vão correndo.

Alguém as quer deter, água vazia

de projectos, de vida entressonhada?

Alguém as colhe, prende, acarinha,

as encerra num lago infinito?

Alguém quer conhecer a sua lenda,

a mensagem que trazem escondida?

Não. Elas morrem ou voltam para trás,

de encontro à sua sina impregnada

no vai-e-vem constante que as assombra…

Diana Sá