A um ti que eu inventei
Fevereiro 22, 2018

Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta

e o passá-la em finíssima aguada

com um pincel de marta.

.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,

um armar de arames cauteloso e atento,

um proteger da chama contra o vento,

pentear cabelinhos de criança.

.

Um desembaraçar de linhas de costura,

um correr sobre lã que ninguém saiba ou oiça,

Um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

.

Penso em ti com tamanha ternura

como se fosses vidro ou película de loiça

que apenas com o pensar te pudesses partir.

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António Gedeão

Vieste como um barco carregado de vento
Novembro 28, 2017

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

mar 4

Maria do Rosário Pedreira    em    ‘O Canto do Vento nos Ciprestes’

Sempre que te vais
Junho 11, 2015

Sempre que te vais,

fico sempre mais pobre,

quando ficas é sempre tão cedo.

Dos cigarros mal apagados que ficaram, do suor,

dos lençóis despenteados, das cruzes.

aflitos subimos o muro das ilusões.

Que cobardes que éramos não fosse o amor!

Damo-nos, despimos as máscaras, deixamo-nos à mercê dos deuses.

Brincamos, choramos e ainda temos tempo de ver nascer o dia.

Tu partes, levas-me e eu fico mudo por dentro.

É preciso muita coragem para amar, ver partir,

e voltar a vestir o fato já gasto da civilização!

solslslslsl

Daniel  Dias

Pelo Sonho é que vamos
Outubro 18, 2014

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.

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Sebastião da Gama

Se partires, não me abraces
Maio 22, 2011

Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta

uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre

e sonha vom viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão

das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;

mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,

porque o ar que respiras junto de mim é como um vento

a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno

nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz

senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta

as embarcações perdidas nos gritos do mar) ; e o rosto

espia os espelhos à espera que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário  Pedreira

Tempo em que se morre
Agosto 5, 2010

Agora é verão, eu sei.

Tempo de facas, tempo

em que perdem os anéis

as cobras à míngua de água.

Tempo em que se morre

de tanto olhar os barcos.

É no verão, repito.

Estás sentada no terraço

e para ti correm todos os meus rios.

Entraste pelos espelhos :

mal respiras.

Vê-se bem que já não sabes respirar,

que terás de aprender com as abelhas.

Sobre os gerânios

te debruças lentamente.

Com rumor de água

sonâmbula ou de arbusto decepado

dás-me de beber

um tempo assim ardente.

Pousas as mãos sobre o meu rosto,

e vais partir

sem nada me dizer,

pois só quiseste despertar em mim

a vocação do fogo ou do orvalho.

E devagar, sem te voltares,

pelos espelhos entras na noite.

Eugénio de Andrade

 

Cada dia
Junho 9, 2009

Cada dia é mais evidente que partimos

sem possível regresso no que fomos,

cada dia as horas se despem mais do alimento :

não há saudade nem terror que baste.

Casa à margem

Sophia de Mello Breyner Andresen

1º Soneto de amor da hora triste
Outubro 15, 2008

Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá,

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a alguém que se espera a cada instante.

.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco

sem remos e sem velas, pelo charco

azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.

E não quero que chores para fora,

Amor, que tu bem sabes que quem chora

.

assim mente. E  se quiseres partir e o coração

to peça, diz-mo. A travessia é longa… Não atino

talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.

.

 Álvaro Feijó