Balada dos Amigos Separados
Dezembro 5, 2017

Onde estais vós Alberto Henrique
João Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena angústia
aos solavancos do destino
e não consegue estrangular-nos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta ânsia inviolável
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detrás de cada esquina
e por detrás de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
tão confiante tão serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu? aonde?

amigos

Mário Dionísio   em    ‘As Solicitações e Emboscadas’

Soneto de Inês
Março 11, 2017

Dos olhos corre a água do Mondego,

os teus cabelos parecem choupais.

Inês! Inês! Rainha sem sossego

dum rei que por amor não pode mais.

.

Amor imenso que também é cego,

amor que torna os homens imortais.

Inês! Inês! Distância a que não chego,

morta tão cedo por viver demais.

.

Os teus gestos são verdes, os teus braços

são gaivotas pousadas no regaço

dum mar azul turquesa intemporal.

.

As andorinhas seguem os teus passos

e tu morrendo com os olhos baços.

Inês! Inês! Inês de Portugal.

ines-de-castro

Ary dos Santos

.

Neste curto espaço entre nós e a morte
Dezembro 27, 2016

Neste curto espaço entre nós e a morte

tão mal gastamos nossa longa despedida!

.

Tu, amor de quem não sei o nome

de onde não sei a sorte,

vais passar além deste poema que era teu

e assim de morte construída,

teus passos vão enchendo a minha vida.

.

Outro nome será flor sobre os teus lábios,

e outros dedos tocarão a límpida frescura

dos teus ombros quase d’ água

e saberão de cor o horizonte branco do teu corpo…

.

E assim iremos de olhos futuros,

tu, envelhecendo na minha ausência,

eu, a erguer-te na curva da esperança,

.

e outra mão vai desmanchar a tua trança

e hei-de beijar teu rosto onde não eras

e serás só o que há antes das horas mais tristes

e será tarde até saber que não existes.

.

Neste curto espaço entre nós e a morte,

onde me vais perdendo,

onde te vou buscando.

nosso amor se vai embora alimentando

de despedida ;

não porque morra o tempo em teus braços,

mas a vida.

Dandelion --- Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Dandelion — Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Victor Matos e Sá

Sexta canção da vida
Março 4, 2016

Vou:
disperso nas horas,
incerto nos passos.
.
Rezo:
Vida, havias de trazer horas brutais,
horas abertas,
rasgadas por minhas mãos ansiosas
de lúcidos temporais!
.
Penso:
se as não rasgar por minhas mãos,
a Vida não as dará jamais.

mãos

Manuel da Fonseca

Fui sabendo de mim
Agosto 27, 2013

Fui sabendo de mim

mia couto

por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, em “Raiz de Orvalho e Outros Poemas

Porque cada segundo é precioso…
Julho 8, 2013

Como se tivesse todo o tempo, não
se lembra do tempo que foi, nem pensa no que
há-de vir. O tempo é a mesa vazia onde
nada cabe, como se estivesse cheia; e
entre passado e futuro as sombras
alargam-se pelo chão, desenhando
a escadaria por onde desceu, até
hoje, numa incerteza de passos
infalíveis.

tempo

Nuno Júdice

De novo
Março 28, 2013

De novo os passos, mansos, nas escadas.

De novo as chaves a cantar na porta.

Tulipas de silêncio amedrontadas

aguardam o sorriso que conforta.

.

De novo as mãos onde despontam rios.

De novo os olhos onde oscila a lua.

E desato as amarras dos navios

e das palavras que me fazem tua.

.

Chegar é confessar que me desejas.

Calar é confirmar que não dispenso

o gesto em que, gaivota, me insinuo…

.

Se de leve no ombro tu me beijas,

pela seda da roupa te pertenço

pela sede da boca te possuo.

olhosnosolhos

Rosa Lobato de Faria

Percepção subjectiva
Maio 22, 2012

Não sei que nome chamar-te.
Nem onde estão os passos
… que quero sombra dos meus.

Talvez eu seja um livro cansado
de tanto me leres,
ou tão-pouco saibas
onde ficou o marcador de página
O eterno é tão efémero
que nem damos pelo presente…
há aromas que não ficam na pele.

Sonho que queres vir sem convite
onde sou frente e verso,
onde desenho na página par
um balão a insuflar
ao sabor da aragem
ou a primeira pétala
que cai na mudança de estação.

Não sei que nome chamar-te
quando te vejo entre os nenúfares
numa paisagem serena,
prostrada abraçando a árvore
que lança os ramos sobre as águas,
onde as nossas roupas
se transformam em leito de amor
e dançamos ao brilho das estrelas apaixonadas.

Não sei que nome chamar-te
quando levas o cálice aos lábios de cor carmim
e olhas o livro despojado de letras.

Francisco Valverde Arsénio

Recomeça
Maio 5, 2012

Recomeça… se puderes,

sem angústia e sem pressa

e os passos que deres,

nesse caminho duro

 do futuro,

dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances,

não descanses,

de nenhum fruto

queiras só metade.

E, nunca saciado,

vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

o logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

onde, com lucidez, te reconheças…

.

Miguel Torga

Sem depois
Fevereiro 4, 2011

Todas as vidas gastei para morrer contigo.

 

E agora

esfumou-se o tempo

e perdi o teu passo

para além da curva do rio.

 

Rasguei as cartas.

Em vão,

o papel restou intacto.

Só os meus dedos murcharam, decepados.

 

Queimei as fotos.

Em vão.

As imagens restaram incólumes,

e só os meus olhos se desfizeram

no dom das cinzas.

 

Com que roupa vestirei a minha alma

agora que já não há domingos?

Depois de te viver, não há poente.

Nem o enfim de um fim.

 

Todas as mortes gastei, para viver contigo.

 

Mia  Couto