Canção tão simples
Março 27, 2018

Quem poderá domar os cavalos do vento

quem poderá domar este tropel

do pensamento

à flor da pele?

.

Quem poderá calar a voz do sino triste

que diz por dentro do que se não diz

a fúria em riste

do meu país?

.

Quem poderá proibir estas letras de chuva

que gota a gota escorrem nas vidraças

pátria viúva

a dor que passa?

.

Quem poderá prender os dedos farpas

que dentro da canção fazem das brisas

as armas harpas

que são precisas?

chuva4

Manuel  Alegre

Espelho
Fevereiro 26, 2017

 

Que rompam as águas:
é de um corpo que falo.
Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nem outra casa.

É de um rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
de um pequeno charco de luz.

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Eugénio de Andrade

Terra livre e insubmissa
Maio 22, 2015

E no entanto é doce dizer pátria

sonhar a terra livre e insubmissa

inteiramente nossa

Sonhá-la como se pedra a pedra a pedra a construíssemos

Como se nada houvesse antes de nós

e desde as fundações a erguêssemos completa

pura alegre acolhedora virgem

de medos mortos insepultos

agreste

Daniel  Filipe

Lápide
Maio 18, 2014

Luís Vaz de Camões.

Poeta infortunado e tutelar.

Fez o milagre de ressuscitar

a Pátria em que nasceu.

Quando, vidente, a viu

a caminho da negra sepultura,

num poema de amor e de aventura

deu-lhe a vida

perdida.

E agora,

nesta segunda hora

de vil tristeza,

imortal,

é ele ainda a única certeza

de Portugal.

camoes

Miguel Torga

Panorama
Junho 4, 2013

Pátria vista da fraga onde nasci.

Que infinito silêncio circular!

De cada ponto cardeal assoma

a mesma expressão muda.

É de agora ou de sempre esta paisagem

sem palavras,

sem gritos,

sem o eco sequer de uma praga incontida?

Ah! Portugal calado!

Ah! Povo amordaçado

por não sei que mordaça consentida!

paisagem com árvore

Miguel Torga

Memória
Dezembro 11, 2011

A memória longínqua de uma pátria
eterna mas perdida e não sabemos

se é passado ou futuro onde a perdemos.

Sophia de Mello Breyner, Poemas de um livro destruído