O silêncio
Maio 31, 2017

O silêncio dói como pedra na língua.

A vida por vezes não tem esperança nem sentido,

tudo parece em paz e no entanto o amor

tem sempre uma mais fria recompensa.

Desde a primeira flor, pouco ainda mudou

essa face da noite com a face do Homem.

O rouxinol canta, sim, a dor do Homem canta

e à força de a esquecer aprende-se a esquecer.

O silêncio é de passos que atormentam a noite

e que ao fundo do fogo vão buscar a luz

para fazer arder as horas até ao orvalho

onde a manhã se ri com os dentes da água.

Às vezes vagueia pelo pomar da noite

uma égua perdida numa nesga de luz,

é a dor que pergunta e procura uma casa

junto à erva do peito, sob os olhos calados.

novembro2

Joaquim Pessoa

Já me disseste tanta coisa
Setembro 26, 2016

Já me disseste tanta coisa!

Já me disseste que tiveste uma infância infeliz,

já me disseste que o teu grande amor te tinha desiludido.

Já me disseste que a solidão mata mais depressa do que um tiro.

Já me disseste que não ouvias ninguém,

que querias que te deixassem em paz!

Eu disse-te que visses o pôr-do-sol.

Disse-te para te rires às gargalhadas do absurdo da vida.

Já te disse que te comovesses com o sorriso duma criança.

Já te disse que é um milagre a vida e estar vivo,

e devemos agradecer esta dádiva.

Já não sei o que te dizer mais, meu amor!

sorriso 2

Daniel  Dias

Soneto VIII
Setembro 20, 2016

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
.
Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz de guerra a que se vendem
a pura liberdade do meu canto,
.
um cântico de terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
.
tão quase é coisa ou sucessão que passa…
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da graça.

serena

Jorge de Sena

Quási
Maio 28, 2016

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse àquém…

 

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
num baixo mar enganador de espuma;
e o grande sonho despertado em bruma,
o grande sonho – ó dôr! – quási vivido…

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
quási o princípio e o fim – quási a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim… –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
asa que se elançou mas não voou…

Momentos d’alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indicios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
e mãos de herói, sem fé, acobardadas,
puseram grades sôbre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
das coisas que beijei mas não vivi…

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol – e fôra brasa,
um pouco mais de azul – e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza…
Se ao menos eu permanecesse àquem…

folhas de roseira

 

 

Mário de Sá-Carneiro     em     ‘Dispersão’

Paz sem vencedores e sem vencidos
Julho 5, 2015

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
a paz sem vencedor e sem vencidos
que o tempo que nos deste seja um novo
recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
a paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
para podermos ler melhor a vida
para entendermos vosso mandamento
para que venha a nós o vosso reino

Dai-nos

a paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
dai-nos a paz que nasce da verdade
dai-nos a paz que nasce da justiça
dai-nos a paz chamada liberdade

Dai-nos Senhor paz que vos pedimos

sophia 2

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Europa
Fevereiro 9, 2015

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno

e disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?

É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.

Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.

Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,

nem sequer contra o insólito, contra o desespero.

Tu disparas contra a luz.

Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.

Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.

Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.

Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.

Há tantos meses que não chove – reparaste?

A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.

Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.

Quem deve. Quem empresta. Quem paga.

Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.

Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.

Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.

Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,

nós não queremos disparar.

europa

Filipa Leal

(“A Europa” é um poema integrado no poema em cadeia “Renshi.eu – um diálogo europeu em versos” do Festival de Poesia de Berlim. É um poema em cadeia escrito por 28 poetas de 28 países europeus, que abordam de forma literária as questões do presente e futuro da Europa. Cada poeta começa a escrever a partir do último verso do poema anterior, dando origem a uma obra gigantesca que espelha uma miríade de olhares e referências culturais. Este poema foi lido pela autora em português, na sessão de apresentação da obra conjunta, na Akademie der Kuenste de Berlim.)

Eu queria
Janeiro 5, 2015

Eu queria mais altas as estrelas,
mais largo o espaço, o Sol mais criador,
mais refulgente a Lua, o mar maior,
mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas.
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
– Quanto mais funda e lúgubre a descida,
mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa… em paz, contente,
um dia adormecer, serenamente,
como dorme no berço uma criança!

natureza31

Florbela Espanca

Nevoeiro
Novembro 27, 2013

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

define com perfil e ser

este fulgor baço da terra

que é Portugal a entristecer –

brilho sem luz e sem arder,

como o que o fogo-fátuo encerra.

.

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

nem o que é mal nem o que é bem.

( Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

.

É a hora!

nevoeiro

Fernando Pessoa

Paz
Setembro 16, 2012

– O senhor é feliz?

– Não sei, não sei. Eu não sei o que é ser feliz. Eu vivo, e vivo em paz com os meus semelhantes.

– O que é a esperança, para o senhor?

– Um fio muito fino, ao qual eu me agarro p’ra não morrer desesperado.

Drummond de Andrade

Finalmente vivo
Abril 3, 2012

Vivamos cada instante com profunda intensidade.

Se a vida é uma verdadeira dádiva do Universo,

quem somos nós para abreviá-la com infelicidade?

.

Pela manhã levantemo-nos em paz com as nossas dores.

Fiquemos em paz e harmonia com o espelho,

sem nos culparmos pela vaidade ferida.

Fiquemos em paz com os nossos valores,

exorcizando todas as angústias e mágoas.

.

Para que os outros nos aceitem como somos,

nós é que temos de nos aceitar primeiro,

naquilo que temos de imperfeito.

Amando e curando as nossas feridas,

aquelas bem fundas, onde só nós lá chegamos.

.

Mesmo que a vida se mostre vazia de significados,

e que tudo à nossa volta pareça conspirar contra nós.

Fundamental é mesmo não esquecer e ter presente,

que só nós somos os juízes das nossas vidas.

Da minha parte confesso já ter perdido a pressa,

que foi preciso passar pela dor do orgulho ferido,

para descobrir o verdadeiro significado da minha vida.

Finalmente sou coerente quando digo que vivo!

Luís Pedro Proença   em   Alma Zen