A Foice e a Pena
Abril 29, 2019

Com outra que não pena arma trabalhas.
Se é minha a pena é tua a foice. Mas
se acaso são diferentes nossas armas
as penas são as mesmas e as batalhas.

Eu ceifo com a pena ervas daninhas
e a mentira que a todos envenena.
E tu ceifando penas essa pena
que fraterna se junta às penas minhas.

Onde tu ceifas eu ceifeiro sou
da tua dor ceifeira e dessas queixas
que dizes a ceifar e nunca ceifas.

Se já teu canto a foice te ceifou
canta ceifeira canta: a dor destrói-se
juntando a foice à pena e a pena à foice.

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 Manuel Alegre

Uma após uma
Junho 23, 2015

Uma após uma as ondas apressadas
enrolam o seu verde movimento
e chiam a alva ‘spuma
no moreno das praias.
.

Uma após uma as nuvens vagarosas
rasgam o seu redondo movimento
e o sol aquece o ‘spaço
do ar entre as nuvens ‘scassas.

.

Indiferente a mim e eu a ela,
a natureza deste dia calmo
furta pouco ao meu senso
de se esvair o tempo.

.

Só uma vaga pena inconsequente
pára um momento à porta da minha alma
e após fitar-me um pouco
passa, a sorrir de nada.

praia 2

Ricardo Reis   em   “Odes”

Acusam-me de mágoa e desalento
Maio 1, 2013

Acusam-me de mágoa e desalento,

como se toda a pena dos meus versos

não fosse carne vossa, homens dispersos,

e a minha dor a tua, pensamento.

.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,

quando a luz que não nego abrir o escuro

da noite que nos cerca como um muro,

e chegares a teus reinos, alegria.

.

Entretanto, deixai que não me cale:

até que o muro fenda, a treva estale,

seja a tristeza o vinho da vingança.

.

A minha voz de morte é a voz da luta:

se quem confia a sua dor perscruta,

maior glória tem em ter esperança.

anoitecer

Luís de Camões

Sábados
Abril 14, 2012


Lá fora, há um ocaso, obscura jóia
… engastada no tempo,
e uma recôndita cidade cega
de homens que não te viram.
A tarde cala ou canta.
Alguém descrucifica os ansios
cravados no piano.
Sempre a abundância da tua beleza.
* * *

A despeito do teu desamor,
a tua beleza
prolonga o seu milagre pelo tempo.
A felicidade mora em ti
tal como a Primavera numa folha nova.
Não sou quase ninguém,
sou apenas o anseio
que se perde na tarde.
Em ti mora o prazer
tal como a crueldade nas espadas.

* * *

Carregando as persianas vem a noite.
Na sala tão severa, como cegos,
procuram-se uma à outra as nossas solidões,
Sobreviveu à tarde
a brancura gloriosa da tua carne.
No nosso amor há uma pena
parecida com a alma.

* * *

Tu
que ainda ontem eras só toda a beleza
és agora também todo o amor.

Jorge Luís Borges

Caminhando
Março 30, 2009

observado

Caminho… E  vendo o tempo que ficou

atrás de mim, tão cheio de incerteza,

em meu espírito encontro mais firmeza

– menos pena da vida que passou !

…….

Caminho… E  o cepticismo que brotou

da minha alma, vencida de tristeza,

não deixará mudar em fé acesa

a  dúvida que a vida originou.

…….

Caminho… E  tento ver se no porvir

para o passado encontro o esquecimento

pois neste meu desejo hei-de sentir

…….

renascer dentro de mim um novo alento!

Caminho… E  os meus lábios, a sorrir,

enganam o meu próprio pensamento.

 

Gabriela Castelo-Branco