A um ti que eu inventei
Fevereiro 22, 2018

Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta

e o passá-la em finíssima aguada

com um pincel de marta.

.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,

um armar de arames cauteloso e atento,

um proteger da chama contra o vento,

pentear cabelinhos de criança.

.

Um desembaraçar de linhas de costura,

um correr sobre lã que ninguém saiba ou oiça,

Um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

.

Penso em ti com tamanha ternura

como se fosses vidro ou película de loiça

que apenas com o pensar te pudesses partir.

sem-titulo3

António Gedeão

Se eu pudesse
Julho 22, 2016

Se eu pudesse trincar a terra toda
e sentir-lhe um paladar
seria mais feliz um momento
mas eu nem sempre quero ser feliz.

E preciso ser de vez em quando infeliz
para poder ser natural…
Nem tudo são dias de sol
e a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
naturalmente, como quem não estranha
que haja montanhas e planícies
e que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
na felicidade ou infelicidade.
Sentir como quem olha.
Pensar como quem anda.
E quando se vai morrer, lembrar-se que o dia morre,
e que o poente é belo e é bela a noite que fica.
Assim é e assim seja…

arame

Alberto Caeiro

Sexta canção da vida
Março 4, 2016

Vou:
disperso nas horas,
incerto nos passos.
.
Rezo:
Vida, havias de trazer horas brutais,
horas abertas,
rasgadas por minhas mãos ansiosas
de lúcidos temporais!
.
Penso:
se as não rasgar por minhas mãos,
a Vida não as dará jamais.

mãos

Manuel da Fonseca