Quando eu morrer
Abril 30, 2014

quando eu morrer murmura esta canção

que escrevo para ti. quando eu morrer

fica junto de mim, não queiras ver

as aves pardas do anoitecer

a revoar na minha solidão.

 

quando eu morrer segura a minha mão,

põe os olhos nos meus se puder ser,

se inda neles a luz esmorecer,

e diz do nosso amor como se não

 

tivesse de acabar,

sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição

que ao deixar de bater-me o coração

fique por nós o teu inda a bater,

quando eu morrer segura a minha mão.

Quando eu morrer murmura esta canção</p><br /><br />
<p>que escrevo para ti. quando eu morrer</p><br /><br />
<p>fica junto de mim, não queiras ver</p><br /><br />
<p>as aves pardas do anoitecer</p><br /><br />
<p>a revoar na minha solidão. </p><br /><br />
<p>quando eu morrer segura a minha mão,</p><br /><br />
<p>põe os olhos nos meus se puder ser,</p><br /><br />
<p>se inda neles a luz esmorecer,</p><br /><br />
<p>e diz do nosso amor como se não </p><br /><br />
<p>tivesse de acabar,</p><br /><br />
<p>sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição</p><br /><br />
<p>que ao deixar de bater-me o coração</p><br /><br />
<p>fique por nós o teu inda a bater,</p><br /><br />
<p>quando eu morrer segura a minha mão. </p><br /><br />
<p>Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

Vasco Graça Moura,    em    “Antologia dos Sessenta Anos”

A perfeição
Outubro 8, 2013

O que me tranquiliza

é que tudo o que existe

existe com uma precisão absoluta.

.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete

não transborda nem uma fracção de milímetro

além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.

Pena é que a maior parte do que existe

com essa exatidão

nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós

como um sentido secreto das coisas.

.

Nós terminamos adivinhando, confusos,

a perfeição.

cerejeira-em-flor

Clarice  Lispector

A mulher feliz
Março 28, 2012

Está de pé sobre as brancas dunas. As ondas conduziram-na
e os ventos empurraram-na, está ali, na perfeição redonda
da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
Só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.

É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
Que lentas são as folhas largas e as areias!
Que denso é este corpo, esta lua de argila!

Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
Crescem, crescem os músculos da mais intima distância.

ANTÓNIO RAMOS ROSA, em VOLANTE VERDE

deliciosa visão
Agosto 20, 2009

borboletaapetece-me pintar

tudo quanto me rodeia de palavras

para nunca me sentir sozinho

Sentas-te a meu lado

perfeita nas tuas imperfeições

tu deliciosa visão poética

milagre das solidões vencidas

 

António Paiva