Dorme, meu amor
Setembro 22, 2018

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais

este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.

Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou

há muito tempo: e o vento amaciou: e a minha mão

desvia os passos do medo. Dorme, meu amor –

.

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste

e pode levantar-se como um pássaro assim que

adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra

não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes

e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

.

agora e sossega a porta está trancada: e os fantasmas

da casa que o jardim devorou andam perdidos

nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

.

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e

nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já

olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui

de guarda aos pesadelos a noite é um poema

que conheço de cor e vou cantar-to até adormecer

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Mª  Rosário  Pedreira

meditação à beira mar
Agosto 20, 2014

 

olho agora tudo com o desprendimento
de quem nada mais tem a perder
que a si mesmo
e é tão pouco

se da vida esperei muito
dos homens nunca esperei tanto
mas é tão pouco o que deles vejo hoje
que ser mais um
é pedir de menos a mim próprio

não trago a verdade no bolso
nem a história é coisa que dono tenha
olho sinto e não entendo

continuo a gritar
dentro de um pesadelo

quem me roubou o sonho?

asruasdopensamento

A.H. Cravo

Mãe 2
Maio 1, 2011

No mais fundo de ti,

eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal…

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, in “Os Amantes Sem Dinheiro”

Compreender
Junho 19, 2009

É triste não compreender.

Mais triste ainda é não obter uma explicação.

Vida, por que és tão complicada?

Quando escondes as tuas cartas,

imagino histórias e histórias de angústia,

entrego-me ao correr da intuição

transformada em pesadelo…

angústia

Não sei o que se passa.

E tu não queres que eu saiba.

Queres que eu continue a mendigar respostas…

 

Diana Sá

Gaveta dos papéis
Agosto 4, 2008

Não há motivo para te importunar a meio da noite,

como não há leite no frigorífico

nem um limite traçado para a solidão doméstica.

Nada desaparece antes de ser dito,

tudo desaparece antes de ser dito,

e  tu queres dormir descansada,

tens direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema,

esse não é motivo para te importunar.

Eu escrevo muitos poemas,

e tu trabalhas de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa.

Não tenho o direito de te telefonar para te dizer isso,

apesar dessa evidência me matar agora.

E  morro. Mas não morro.

Se morresse, perguntavas:

por que não me telefonaste?

Se telefonasse, perguntavas:

sabes que horas são?

Ou não atendias.

E  eu ficava aqui,

com a noite ainda mais comprida,

com a insónia,

com as palavras

a despegarem-se dos pesadelos.

 José Luís Peixoto