Os difíceis amigos
Setembro 13, 2014

Estes mortos difíceis
que não acabam de morrer
dentro de nós; o sorriso
da fotografia,
a carícia suspensa, as folhas
dos estios persistindo
na poeira; difíceis;
o suor dos cavalos, o sorriso,
como já disse, nos lábios,
nas folhas dos livros;
não acabam de morrer;
tão difíceis, os amigos.

adeus

Eugénio de Andrade.

Piloto automático – 2
Junho 28, 2012

Verde vento que vestes o que resta
… da noite mal gritada em vozes loiras,
ensina-me a rasgar os precipícios
de um corpo sem verdade nem mentira
na poeira do mundo que ainda é
talvez apenas música, talvez
respiração dos astros tresloucados
sem órbita que os olhos iluminem
no silêncio tão escuro deste céu.
Verde vento que vestes a manhã,
ensina-me a falar como quem ouve
ainda a voz de alguém, o seu segredo
que a madrugada acende no meu rosto,
ensina-me a romper o dia claro.

FERNANDO PINTO DO AMARAL,  em  POEMAS ESCOLHIDOS