Balada do bom cavaquista
Maio 26, 2019

que eu sempre fui um bom cavaquista

nem é preciso repeti-lo:

anos depois já só se avista

tanto canário, tanto grilo,

tanto gorjeio, tanto trilo

que de promessas se guarnece:

um mundo e outro, isto e aquilo,

e o povo tem o que merece.

.

vi engrossar de boys a lista,

vi saltitar mais do que o esquilo,

de galho em galho ser artista,

e armar o estado em crocodilo.

voracidade? era do estilo.

economia? ai que arrefece!

vi portugal vendido ao quilo

e o povo tem o que merece.

.

vi muito pássaro na pista

já de asa murcha e intranquilo,

já sem alface nem alpista

e já sem grão dentro do silo,

secou a teta e o mamilo,

chegou a hora, chega o stress.

há vários anos que refilo,

e o povo tem o que merece.

.

senhor, na entrada deste asilo,

mordeu-se a isca da benesse

e o povo tem o que merece.

Rain

Vasco Graça Moura

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3.
Maio 6, 2019

era assim como se nunca mão de homem tivesse
ultrapassado os limites da minha pele assim como

um grito cortado na cintura esperando que
o teu rasto de repente se esfumasse entre
os medos da manhã e nenhuma tempestade
pudesse alguma vez desviar os teus passos e
o espanto que neles gritava como
no primeiro dia em que houve luz e todos os nomes que de um momento para o outro
as coisas possuíam entraram nas minhas veias
e ergueram-se na minha noite sem
esperar pela vinda de ninguém e cada sílaba que nascia trazia consigo
uma maneira diferente e inútil
de te esquecer
.
Alice  Vieira   em    Os armários da noite ( livro a publicar)

O título vem de uma epígrafe do Nuno Júdice:

“(…)não convém abrir
os armários da noite, mesmo que as sombras nos peçam
o que está dentro dele.”

Não exijas mais nada
Abril 14, 2019

olhar

Não exijas mais nada. Não desejo

também mais nada, só te olhar, enquanto

a realidade é simples,

e isto apenas.

Mário de Andrade

Entre mim e a vida
Março 8, 2019

Já não escrevo sem algo entre mim e a vida:

olho a paisagem,

há inúmeros campos,

regresso a casa pelas estradas de terra,

tropeço em cada pedra.

O sangue do horizonte circula

nas minhas veias,

mas canto a natureza entre mim e a vida.

.

Se volto ao refúgio das paredes domésticas,

surge o teu semblante

no percurso

(é uma realidade,

esqueci as personagens fictícias).

Quero dizer o rosto do último lugar

habitável

e pronuncio o teu nome, perdido.

.

Quando era menos incompleto

trabalhava os poemas

até ao silêncio,

para que dissessem o rumor inaudito,

agora vêm das nascentes

sem a contagem das sílabas.

Consciente da origem e do fim,

de nada separado,

digo milhares de palavras entre mim e a vida.

natureza_rio

Joel  Henriques

Bié – o regresso falhado a casa
Março 2, 2019

A casa alberga o mapa da linguagem

o relógio antigo da avó

a ampulheta imemorial

que conta os grãos perdidos do tempo.

A casa aloja o próprio tempo

a raiz dos primeiros passos

aqueles que me casaram

com a respiração do mundo.

.

Hoje ao cair da tarde

no controlo militar de Silva Porto – Gare

eles não me deixaram passar

“Se você passas daqui, vais para a morte”-

disseram.

.

Fiquei a olhar o cano das espingardas

o rumor dos gatilhos na face

atravessei a minha infância em segundos

com os olhos húmidos.

Eu vi ao longe o meu passado

perdido na grande noite escura.

Depois daquele dia

nunca mais fui o mesmo

nunca mais pertenci

a mim próprio.

MINOLTA DIGITAL CAMERA

António Costa Silva

Nenhuma morte apagará
Fevereiro 18, 2019

Eu estava tão perto de ti que tenho frio ao pé dos outros.-  PAUL ÉLUARD

amor

Nenhuma morte apagará os beijos

e por dentro das casas onde nos amámos

ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre

estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,

esses densos sinais do amor e da morte

com que se vive a vida.

.

Aí estarão de novo as nossas mãos

e nenhuma dor será possível onde nos beijámos.

Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.

Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,

profundamente, no peito dos amantes,

a nossa alma líquida e atormentada

.

desvendará em cada minuto o seu segredo

para que este amor se prolongue e noutras bocas

ardam violentos de paixão os nossos beijos

e os corpos se abracem mais e se confundam

mutuamente violando-se, violentando a noite

para que outro dia, afinal, seja possível.

Joaquim Pessoa

Escavação
Janeiro 31, 2019

Numa ânsia de ser alguma cousa,

divago por mim mesmo a procurar,

desço-me todo, em vão, sem nada achar,

e minh’alma perdida não repousa!

.

Nada tendo, decido-me a criar.

Brando a espada, sou luz harmoniosa

e chama genial que tudo ousa

unicamente à força de sonhar…

.

Mas a vitória fulva esvai-se logo…

                                                            E cinzas, cinzas só, em vez de fogo…

– Onde existo que não existo em mim?

.

Um cemitério falso sem ossadas,

noites de amor sem bocas esmagadas –

tudo outro espasmo que princípio ou fim…

bando

Mário de Sá Carneiro

Poema do Silêncio
Janeiro 10, 2019

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
a carvão, a sangue, a giz,
sátiras e epigramas nas paredes
que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
que nada me dariam do infinito que pedi,
– que ergui mais alto o meu grito
e pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
eis a razão das épi-trági-cómicas empresas
que, sem rumo,
levantei com sarcasmo, sonho, fumo…

O que buscava
era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais, ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
sair deste meu ser formal e condenado,
erigi contra os céus o meu imenso Engano
de tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
procurei fugir de mim,
mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
sofro por este chão que aos pés se me pegou,
sofro por não poder fugir.
sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição…)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
nunca os usei nem usarei,
se nada do que levo a efeito vale,
que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
era por um de nós. E assim,
neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
do que a própria imensa dor
de compreender como é egoísta
a minha máxima conquista…

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
e o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
e sobre mim de novo descerá…

Sim, descerá da tua mão compadecida,
meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
saciarão a minha fome.

José Régio  em  ‘As Encruzilhadas de Deus’

Antítese
Dezembro 17, 2018

Navego num largo mar de enganos,

guiado pela estrela cega do horizonte.

O meu destino está inscrito nestes anos

em que o tempo nasce de uma futura fonte.

.

Assim, o que foi ontem está para ser,

passado que vive num presente sem nós,

como o rio que, para correr, nasce na foz;

e tudo o que vi ainda está para se ver,

.

tal como o silêncio que fala nesta voz.

O caminho faz-se quando se está parado,

barco que anda sem haver vento;

.

e só quem está certo pode ser enganado

quando, ao pensar, perde o pensamento,

e em tudo o que sonha só vê o passado.

barco1-1

Nuno  Júdice

Musa ausente
Novembro 24, 2018

Falta a luz dos teus olhos na paisagem…
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam, à procura
da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
muram a tua ausência.
Sem transparência,
o mesmo rio que te reflectiu
afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por te não ver, a vida anoiteceu

à hora em que teria amanhecido.

Miguel Torga