Sementes
Junho 20, 2020

Olhos,

vale tê-los,

se, de quando em quando,

somos cegos

e o que vemos

não é o que olhamos

mas o que o olhar semeia no mais denso escuro.

.

Vida

vale vivê-la

se, de quando em quando,

morremos

e o que vivemos

não é o que a Vida nos dá

nem o que dela colhemos

mas o que semeamos em pleno deserto.

Mia Couto

a rosa, timbres
Maio 19, 2020

e o outro silêncio enquanto o som repousa:

desfez-se o seu rebordo numa espuma.

de que sombra dos sons se faz a rosa?

da matéria das sombras? de nenhuma?

.

de que fosco murmúrio, cristal, bruma?

de que espirais de noite vagarosa?

do coração desfeito? ou não costuma

a luz gravar-se em sombras numa lousa?

.

coração rouco, o coração, falhada,

a voz vinda do vento se desate

num ramo de penumbras, descontínuo,

.

o mundo passe a ser feito de nada,

só de efémeras rosas a rebate,

como gritos de sangue no destino.

rosas fogo

Vasco Graça Moura

Eu cantarei de amor tão docemente
Fevereiro 14, 2020

Eu cantarei de amor tão docemente,
por uns termos em si tão concertados,
que dois mil acidentes namorados
faça sentir ao peito que não sente.
.
Farei que amor a todos avivente,
pintando mil segredos delicados,
brandas iras, suspiros magoados,
temerosa ousadia e pena ausente.
.
Também, Senhora, do desprezo honesto
de vossa vida branda e rigorosa,
contentar-me-ei dizendo a menor parte.
.
Porém, para cantar de vosso gesto
a composição alta e milagrosa,
aqui falta saber, engenho e arte.

Luís de Camões

Na melancolia de teus olhos
Fevereiro 14, 2020

Na melancolia de teus olhos
eu sinto a noite se inclinar
e ouço as cantigas antigas
do mar.
.
Nos frios espaços de teus braços
eu me perco em carícias de água
e durmo escutando em vão
o silêncio.
.
E anseio em teu misterioso seio
na atonia das ondas redondas.
Náufrago entregue ao fluxo forte
da morte.

Vinicius de Moraes

Real
Dezembro 9, 2019

Real, real, porque me abandonaste?

E, no entanto, às vezes bem preciso

de entregar nas tuas mãos o meu espírito

e que, por um momento, baste

.

que seja feita a tua vontade

para tudo de novo ter sentido,

não digo a vida, mas ao menos o vivido,

nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros

e desimaginar o mundo, descriá-lo,

amarrando-me ao mastro mais altivo

do passado. Mas onde encontrar um passado?

natureza_rio

Manuel António Pina

A hora do cansaço
Novembro 16, 2019

As coisas que amamos,

as pessoas que amamos

são eternas até certo ponto.

Duram o infinito variável

no limite de nosso poder

de respirar a eternidade.

.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,

dar-lhes moldura de granito.

De outra matéria se tornam, absoluta,

numa outra (maior) realidade.

.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,

e todos nós cansamos, por um outro itinerário,

de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.

Restituímos cada ser e coisa à condição precária,

rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre

na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

eternidade

Carlos Drummond de Andrade

E de novo
Outubro 28, 2019

E de novo a armadilha dos abraços.

E de novo o enredo das delícias.

O rouco da garganta, os pés descalços

a pele alucinada de carícias.

.

As preces, os segredos, as risadas

no altar esplendoroso das ofertas.

De novo beijo a beijo as madrugadas

de novo seio a seio as descobertas.

.

Alcandorada no teu corpo imenso

teço um colar de gritos e silêncios

a ecoar no som dos precipícios.

.

E tudo o que me dás eu te devolvo

E fazemos de novo, sempre novo

o amor total dos deuses e dos bichos.

coração 3

Rosa Lobato de Faria

Destino 4
Outubro 22, 2019

Não te amei sob as árvores.

Nem bebi a tua boca ao pé das fontes.

Respirei-te, na tarde,

quando as sombras do outono

desciam, rápidas, sobre mim.

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Luísa Dacosta

Esperança amorosa
Outubro 16, 2019

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
sombra propícia aos crimes e aos amores.
Hoje serei feliz! – Longe, temores,
longe, fantasmas, ilusões do medo.
.
Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
entre os braços de Nise, entre estas flores,
furtivas glórias, tácitos favores,
hei-de enfim possuir: porém, segredo!
.
Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
não leveis, não façais isto patente,
quem nem quero que o saiba o pai dos numes.
.
Cale-se o caso a Jove omnipotente,
porque, se ele o souber, terá ciúmes,
vibrará contra mim seu raio ardente…

Bocage

Balada do bom cavaquista
Maio 26, 2019

que eu sempre fui um bom cavaquista

nem é preciso repeti-lo:

anos depois já só se avista

tanto canário, tanto grilo,

tanto gorjeio, tanto trilo

que de promessas se guarnece:

um mundo e outro, isto e aquilo,

e o povo tem o que merece.

.

vi engrossar de boys a lista,

vi saltitar mais do que o esquilo,

de galho em galho ser artista,

e armar o estado em crocodilo.

voracidade? era do estilo.

economia? ai que arrefece!

vi portugal vendido ao quilo

e o povo tem o que merece.

.

vi muito pássaro na pista

já de asa murcha e intranquilo,

já sem alface nem alpista

e já sem grão dentro do silo,

secou a teta e o mamilo,

chegou a hora, chega o stress.

há vários anos que refilo,

e o povo tem o que merece.

.

senhor, na entrada deste asilo,

mordeu-se a isca da benesse

e o povo tem o que merece.

Rain

Vasco Graça Moura