A hora do cansaço
Novembro 16, 2019

As coisas que amamos,

as pessoas que amamos

são eternas até certo ponto.

Duram o infinito variável

no limite de nosso poder

de respirar a eternidade.

.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,

dar-lhes moldura de granito.

De outra matéria se tornam, absoluta,

numa outra (maior) realidade.

.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,

e todos nós cansamos, por um outro itinerário,

de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.

Restituímos cada ser e coisa à condição precária,

rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre

na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

eternidade

Carlos Drummond de Andrade

E de novo
Outubro 28, 2019

E de novo a armadilha dos abraços.

E de novo o enredo das delícias.

O rouco da garganta, os pés descalços

a pele alucinada de carícias.

.

As preces, os segredos, as risadas

no altar esplendoroso das ofertas.

De novo beijo a beijo as madrugadas

de novo seio a seio as descobertas.

.

Alcandorada no teu corpo imenso

teço um colar de gritos e silêncios

a ecoar no som dos precipícios.

.

E tudo o que me dás eu te devolvo

E fazemos de novo, sempre novo

o amor total dos deuses e dos bichos.

coração 3

Rosa Lobato de Faria

Destino 4
Outubro 22, 2019

Não te amei sob as árvores.

Nem bebi a tua boca ao pé das fontes.

Respirei-te, na tarde,

quando as sombras do outono

desciam, rápidas, sobre mim.

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Luísa Dacosta

Esperança amorosa
Outubro 16, 2019

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
sombra propícia aos crimes e aos amores.
Hoje serei feliz! – Longe, temores,
longe, fantasmas, ilusões do medo.
.
Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
entre os braços de Nise, entre estas flores,
furtivas glórias, tácitos favores,
hei-de enfim possuir: porém, segredo!
.
Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
não leveis, não façais isto patente,
quem nem quero que o saiba o pai dos numes.
.
Cale-se o caso a Jove omnipotente,
porque, se ele o souber, terá ciúmes,
vibrará contra mim seu raio ardente…

Bocage

Balada do bom cavaquista
Maio 26, 2019

que eu sempre fui um bom cavaquista

nem é preciso repeti-lo:

anos depois já só se avista

tanto canário, tanto grilo,

tanto gorjeio, tanto trilo

que de promessas se guarnece:

um mundo e outro, isto e aquilo,

e o povo tem o que merece.

.

vi engrossar de boys a lista,

vi saltitar mais do que o esquilo,

de galho em galho ser artista,

e armar o estado em crocodilo.

voracidade? era do estilo.

economia? ai que arrefece!

vi portugal vendido ao quilo

e o povo tem o que merece.

.

vi muito pássaro na pista

já de asa murcha e intranquilo,

já sem alface nem alpista

e já sem grão dentro do silo,

secou a teta e o mamilo,

chegou a hora, chega o stress.

há vários anos que refilo,

e o povo tem o que merece.

.

senhor, na entrada deste asilo,

mordeu-se a isca da benesse

e o povo tem o que merece.

Rain

Vasco Graça Moura

3.
Maio 6, 2019

era assim como se nunca mão de homem tivesse
ultrapassado os limites da minha pele assim como

um grito cortado na cintura esperando que
o teu rasto de repente se esfumasse entre
os medos da manhã e nenhuma tempestade
pudesse alguma vez desviar os teus passos e
o espanto que neles gritava como
no primeiro dia em que houve luz e todos os nomes que de um momento para o outro
as coisas possuíam entraram nas minhas veias
e ergueram-se na minha noite sem
esperar pela vinda de ninguém e cada sílaba que nascia trazia consigo
uma maneira diferente e inútil
de te esquecer
.
Alice  Vieira   em    Os armários da noite ( livro a publicar)

O título vem de uma epígrafe do Nuno Júdice:

“(…)não convém abrir
os armários da noite, mesmo que as sombras nos peçam
o que está dentro dele.”

Não exijas mais nada
Abril 14, 2019

olhar

Não exijas mais nada. Não desejo

também mais nada, só te olhar, enquanto

a realidade é simples,

e isto apenas.

Mário de Andrade

Entre mim e a vida
Março 8, 2019

Já não escrevo sem algo entre mim e a vida:

olho a paisagem,

há inúmeros campos,

regresso a casa pelas estradas de terra,

tropeço em cada pedra.

O sangue do horizonte circula

nas minhas veias,

mas canto a natureza entre mim e a vida.

.

Se volto ao refúgio das paredes domésticas,

surge o teu semblante

no percurso

(é uma realidade,

esqueci as personagens fictícias).

Quero dizer o rosto do último lugar

habitável

e pronuncio o teu nome, perdido.

.

Quando era menos incompleto

trabalhava os poemas

até ao silêncio,

para que dissessem o rumor inaudito,

agora vêm das nascentes

sem a contagem das sílabas.

Consciente da origem e do fim,

de nada separado,

digo milhares de palavras entre mim e a vida.

natureza_rio

Joel  Henriques

Bié – o regresso falhado a casa
Março 2, 2019

A casa alberga o mapa da linguagem

o relógio antigo da avó

a ampulheta imemorial

que conta os grãos perdidos do tempo.

A casa aloja o próprio tempo

a raiz dos primeiros passos

aqueles que me casaram

com a respiração do mundo.

.

Hoje ao cair da tarde

no controlo militar de Silva Porto – Gare

eles não me deixaram passar

“Se você passas daqui, vais para a morte”-

disseram.

.

Fiquei a olhar o cano das espingardas

o rumor dos gatilhos na face

atravessei a minha infância em segundos

com os olhos húmidos.

Eu vi ao longe o meu passado

perdido na grande noite escura.

Depois daquele dia

nunca mais fui o mesmo

nunca mais pertenci

a mim próprio.

MINOLTA DIGITAL CAMERA

António Costa Silva

Nenhuma morte apagará
Fevereiro 18, 2019

Eu estava tão perto de ti que tenho frio ao pé dos outros.-  PAUL ÉLUARD

amor

Nenhuma morte apagará os beijos

e por dentro das casas onde nos amámos

ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre

estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,

esses densos sinais do amor e da morte

com que se vive a vida.

.

Aí estarão de novo as nossas mãos

e nenhuma dor será possível onde nos beijámos.

Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.

Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,

profundamente, no peito dos amantes,

a nossa alma líquida e atormentada

.

desvendará em cada minuto o seu segredo

para que este amor se prolongue e noutras bocas

ardam violentos de paixão os nossos beijos

e os corpos se abracem mais e se confundam

mutuamente violando-se, violentando a noite

para que outro dia, afinal, seja possível.

Joaquim Pessoa