Porto sentido
Janeiro 2, 2018

porto

Quem vem e atravessa o rio

junto à serra do Pilar,

vê um velho casario

que se estende até ao mar.

.

Quem te vê ao vir da ponte

és cascata sanjoanina

erigida sobre um monte,

no meio da neblina.

,

Por ruelas e calçadas,

da Ribeira até à Foz,

por pedras sujas e gastas

e lampiões tristes e sós.

.

Esse teu ar grave e sério,

num rosto de cantaria

que nos oculta o mistério

dessa luz bela e sombria.

.

Ver-te assim abandonado

nesse timbre pardacento,

nesse teu jeito fechado,

de quem mói um sentimento.

.

E é sempre a primeira vez,

em cada regresso a casa,

rever-te nessa altivez

de milhafre ferido na asa.

Carlos Tê

Im Ernstfall
Julho 31, 2012

Im Ernstfall

ist jeder allein mit sich

und dem verlassenen Kind.

Die Entfernungen

werden größer.

Nur selten einmal

reicht eine Brücke von

einem zum anderen Ufer.

Nur selten ist jemand da

im Ernstfall.

Anne Steinwart

.

Numa situação difícil

cada pessoa está só

como uma criança abandonada.

As distâncias

aumentam.

Só raramente

existe uma ponte

a unir as duas margens.

Só raramente está alguém lá

numa situação difícil.

Nós somos
Julho 25, 2012

Como uma pequena lâmpada subsiste
… e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo,

caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos.

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.

paz1
ANTÓNIO RAMOS ROSA,  em  SOBRE O ROSTO DA TERRA (1961)

Obstáculos
Maio 20, 2009

Vou caminhando por uma vereda.

Deixo que os meus pés me levem.

Os meus olhos pousam-se nas árvores, nos pássaros, nas pedras.

No horizonte recorta-se a silhueta de uma cidade.

Fixo nela o olhar para a distinguir bem.

Sinto que a cidade me atrai. Sem saber como, dou-me conta que nesta cidade posso encontrar tudo o que desejo.

Todas as minhas metas, os meus objectivos e os meus logros.

As minhas ambições e os meus sonhos estão nesta cidade.

Aquilo que eu quero conseguir, aquilo de que necessito, aquilo que eu mais gostaria de ser, aquilo a que aspiro, aquilo que tento, aquilo pelo que trabalho, aquilo que sempre ambicionei, aquilo que seria o maior dos meus êxitos.

Imagino que tudo está nessa cidade.

Sem duvidar, começo a caminhar até ela.

Pouco depois de começar a andar, a vereda põe-se a subir pela encosta acima.

Canso-me um pouco, mas não importa.

Sigo.

Avisto uma sombra negra, mais adiante, no caminho.

Ao aproximar-me, vejo que uma enorme vala impede a minha passagem.

Receio… Duvido.

Desgosta-me não conseguir alcançar a minha meta facilmente.

De todas as maneiras, decido saltar a vala.

Retrocedo, tomo impulso e salto…

Consigo passá-la.

Recomponho-me e continuo a caminhar.

Uns metros mais adiante, aparece outra vala.

Volto a tomar impulso e também a salto.

Corro até à cidade: o caminho parece desimpedido.

Surpreende-me um abismo que detém o meu caminho.

Detenho-me.

É  impossível saltá-lo.

Vejo que num dos lados há tábuas, pregos e ferramentas.

Dou-me conta de que estão ali para construir uma ponte.

Nunca fui habilidoso com as minhas mãos…

… penso em renunciar.

Olho para a meta que desejo… e resisto.

Começo a construir a ponte.

Passam horas, dias, meses.

A ponte está feita.

Emocionado, atravesso-a

e  ao chegar ao outro lado… descubro o muro.

Um gigantesco muro frio e húmido rodeia a cidade dos meus sonhos…

Sinto-me abatido…

Procuro a maneira de o evitar.

Não há forma.

Tenho de o escalar.

A cidade está tão perto…

Não deixarei que o muro impeça a minha passagem.

Proponho-me trepar.

Descanso uns minutos e tomo ar…

Rapidamente vejo,

de um lado do caminho,

uma criança que olha para mim como se me conhecesse.

Sorri-me com cumplicidade. Faz-me vir à memória como eu próprio era… quando criança.

Talvez por isso me atrevo a expressar em voz alta a minha queixa.

– Porquê tantos obstáculos entre o meu objectivo e eu?

A criança encolhe os ombros e responde-me.

– Porque mo perguntas a mim ?

Os obstáculos não existiam antes de tu chegares…

Foste tu que trouxeste os obstáculos.

Jorge Bucay em  contos para pensar

Saudades
Outubro 8, 2008

Tu foges de um céu despedaçado,

que nunca o foi ou poderia ser.

Eu busco um novo dia começado,

uma imagem para te esquecer.

.

Os monstros e as mágoas do passado

não permitem um outro amanhecer,

que a fria solidão, ao nosso lado,

uma vez mais , fizesse irromper.

.

Saudades… Que são elas, se a vida

nos mostrou, corajosa, decidida,

que não nascemos para viver a dois?

.

Importa desbravar outro horizonte,

abrir caminhos, construir a ponte,

ouvir os ecos e vibrar depois…

Diana Sá