Balada do bom cavaquista
Maio 26, 2019

que eu sempre fui um bom cavaquista

nem é preciso repeti-lo:

anos depois já só se avista

tanto canário, tanto grilo,

tanto gorjeio, tanto trilo

que de promessas se guarnece:

um mundo e outro, isto e aquilo,

e o povo tem o que merece.

.

vi engrossar de boys a lista,

vi saltitar mais do que o esquilo,

de galho em galho ser artista,

e armar o estado em crocodilo.

voracidade? era do estilo.

economia? ai que arrefece!

vi portugal vendido ao quilo

e o povo tem o que merece.

.

vi muito pássaro na pista

já de asa murcha e intranquilo,

já sem alface nem alpista

e já sem grão dentro do silo,

secou a teta e o mamilo,

chegou a hora, chega o stress.

há vários anos que refilo,

e o povo tem o que merece.

.

senhor, na entrada deste asilo,

mordeu-se a isca da benesse

e o povo tem o que merece.

Rain

Vasco Graça Moura

Mão humana
Julho 25, 2018

o meu país arde
a galiza arde
a europa arde

há mão humana
do início ao fim

há mão humana
nas alterações climáticas

há mão humana
no abandono
no desleixo
no é meu
aqui mando eu

há mão humana
no crime

há mão humana
nos salvamentos
no heroísmo
na impotência
no espanto

no que resta nas cinzas
onde descobrem nome
há mão humana

há mão humana
há mão humana
há mão humana

não conheço outra

fogo

A. H. Cravo

 

Soneto de Inês
Março 11, 2017

Dos olhos corre a água do Mondego,

os teus cabelos parecem choupais.

Inês! Inês! Rainha sem sossego

dum rei que por amor não pode mais.

.

Amor imenso que também é cego,

amor que torna os homens imortais.

Inês! Inês! Distância a que não chego,

morta tão cedo por viver demais.

.

Os teus gestos são verdes, os teus braços

são gaivotas pousadas no regaço

dum mar azul turquesa intemporal.

.

As andorinhas seguem os teus passos

e tu morrendo com os olhos baços.

Inês! Inês! Inês de Portugal.

ines-de-castro

Ary dos Santos

.

Lápide
Maio 18, 2014

Luís Vaz de Camões.

Poeta infortunado e tutelar.

Fez o milagre de ressuscitar

a Pátria em que nasceu.

Quando, vidente, a viu

a caminho da negra sepultura,

num poema de amor e de aventura

deu-lhe a vida

perdida.

E agora,

nesta segunda hora

de vil tristeza,

imortal,

é ele ainda a única certeza

de Portugal.

camoes

Miguel Torga

Nevoeiro
Novembro 27, 2013

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

define com perfil e ser

este fulgor baço da terra

que é Portugal a entristecer –

brilho sem luz e sem arder,

como o que o fogo-fátuo encerra.

.

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

nem o que é mal nem o que é bem.

( Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

.

É a hora!

nevoeiro

Fernando Pessoa

Panorama
Junho 4, 2013

Pátria vista da fraga onde nasci.

Que infinito silêncio circular!

De cada ponto cardeal assoma

a mesma expressão muda.

É de agora ou de sempre esta paisagem

sem palavras,

sem gritos,

sem o eco sequer de uma praga incontida?

Ah! Portugal calado!

Ah! Povo amordaçado

por não sei que mordaça consentida!

paisagem com árvore

Miguel Torga