Soneto da 4ª feira de Cinzas
Março 9, 2011

Por seres quem me foste, grave e pura

em tão doce surpresa conquistada,

por seres uma branca criatura

de uma brancura de manhã raiada ;

 

por seres de uma rara formosura

malgrado a vida dura e atormentada,

por seres mais que a simples aventura

e menos que a constante namorada ;

 

porque te vi nascer, de mim sozinha

como a noturna flor desabrochada

a uma fala de amor, talvez perjura ;

 

por não te possuir, tendo-te minha,

por só quereres tudo, e eu dar-te nada,

hei-de lembrar-te sempre com ternura.

 

Vinicius  de  Moraes