Hora H
Abril 6, 2020

A Primavera cheira a laranjas.

(Há umas granadas de mão, redondas e pequenas, a que chamam laranjas.)

O cheiro das laranjas deixa a noite luarenta de mistérios.

(Dizem que as noites de luar são as melhores para bombardeamentos aéreos.)

H

António Gedeão

Quando vier a Primavera
Março 22, 2019

Quando vier a Primavera,
se eu já estiver morto,
as flores florirão da mesma maneira
e as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
e a Primavera era depois de amanhã,
morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
e gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Primavera 4

Alberto Caeiro,    em    “Poemas Inconjuntos
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Tu virás
Maio 29, 2018

Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

cravo branco

Eugénio de Andrade

Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Novembro 3, 2017

Quando, Lídia, vier o nosso outono
com o inverno que há nele, reservemos
um pensamento, não para a futura
primavera, que é de outrem,
nem p’ra o estio, de quem somos mortos,
senão para o que fica do que passa –
o amarelo actual que as folhas vivem
e as torna diferentes.

Outono

Ricardo Reis

Não sei como dizer-te
Março 29, 2017

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, especialmente quando os teus pulsos

se enchem de um brilho precioso
e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima,
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura. Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram.
margaridas
Herberto Hélder

Quando vier a Primavera
Março 5, 2017

Poema sobre nada
Janeiro 26, 2017

Por vezes a Primavera é um pássaro que atravessa o Inverno,

não há o calor do sol

ou a brisa tépida que sopra por entre as folhas,

por vezes um olhar é o único aceno.

.

Há dias em que a única certeza da vida

é a tua leve presença

sobre o abismo da ignorância,

há dias em que nem a morte está garantida.

.

Um pássaro de luz corta as nuvens de sombra,

desde a claridade e as trevas

do princípio,

um pássaro de luz da tua íris irrompe.

.

Os teus braços não provarão que estou vivo,

são efémeros

mas deixei de parte a memória,

os teus braços nada provam e cinjo-os.

passaroverde

Joel Henriques

III
Abril 13, 2016

Saio de casa
e deito-me no chão,
inocente,
liberto do peso das palavras
e da Primavera.
.
Encontrei enfim a porta secreta
que liga o sonho dos vivos
ao que há de mais belo na morte
– esta embriaguez com boca
do hálito da terra.
.
Morte verdadeira, para quê?

dreaming_myself_away_by_bellatina

José Gomes Ferreira

De novo a claridade
Abril 4, 2015

Veio de novo a Primavera pelo labirinto das ruas,

mas acordou a paisagem sem demora.

É um tempo à medida dos habitantes da cidade,

conhece os seus percursos

ao pormenor.

.

Não veio em voo altivo da aurora indiferente,

seguiu por avenidas

onde não a conhecem,

por becos onde não a esperavam.

Como se perdem sem conta os passos dos transeuntes

em diversas vias

mas encontram sempre a claridade…

.

Fez de cada varanda uma falésia sobre o oceano,

de cada ilha um novo arquipélago

sem sombras,

é a alma comum da urbe.

Não está acompanhado quem se encontra acompanhado,

mas quem recebeu a Primavera

de verdade.

Por vielas onde se dissimulam criminosos,

por alamedas

em que as árvores são fantasmas

ameaçadores,

não há quem a não tenha acolhido em sua casa.

E a luz cobriu o céu à mesma hora.

pessegueiro

Joel  Henriques    em    Terra Prometida

Noite de Abril
Abril 26, 2014

Hoje, noite de Abril, sem lua,

a minha rua

é outra rua.

.

Talvez por ser mais que nenhuma escura

e bailar o vento leste

a noite de hoje veste

as coisas conhecidas da aventura.

Foz

Uma rua nova destruiu a rua do costume.

Como se sempre nela houvesse este perfume

de vento leste e Primavera,

à sombra dos muros espera

.

alguém que ela não conhece.

E às vezes, o silêncio estremece

como se fosse a hora de passar alguém

que só hoje não vem.

.

Sophia de Mello Breyner Andersen