Lembra-te
Maio 18, 2019

 

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

flor amarela

Mário Cesariny de Vasconcelos    em   “Pena Capital

Traição
Fevereiro 13, 2017

tive vinte anos e tentei

usar palavras nessa altura

e do que disse ao que direi

ficou-me o gosto da procura

mas duvidoso é o que encontrei.

.

agora, com cinquenta e quatro,

muito delas se evaporou

tal como as deixas num teatro

em que ninguém representou,

.

que são assim modalidades

de quanto em mim é a mais verbal

traição das realidades,

oficinal e ficcional,

entre inverdades e verdades.

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Vasco Graça Moura

Tenho fome
Janeiro 19, 2017

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.
.
Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
.
Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
.
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.

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Pablo Neruda

Todas as palavras
Agosto 7, 2015

As que procurei em vão,

principalmente as que estiveram muito perto,

como uma respiração,

e não reconheci,

ou desistiram e

partiram para sempre,

deixando no poema uma espécie de mágoa

como uma marca de água impresente ;

as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te

nem foram capazes de dizer-me ;

as que calei por serem muito cedo,

e as que calei por serem muito tarde,

e agora, sem tempo, me ardem ;

as que troquei por outras (como poderei

esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);

as que perdi, verbos e

substantivos de que

por um momento foi feito o mundo.

E também aquelas que ficaram,

por cansaço, por inércia, por acaso,

e com quem agora, como velhos amantes sem

desejo, desfio memórias,

as minhas últimas palavras.

dia-da-saudade

Manuel António Pina

O lado de fora
Setembro 25, 2014

Eu não procuro nada em ti,

nem a mim próprio, é algo em ti

que procura algo em ti

no labirinto dos meus pensamentos.

.

Eu estou entre ti e ti,

a minha vida, os meus sentidos

(principalmente os meus sentidos)

toldam de sombras o teu rosto.

.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,

o meu silêncio não te deixa falar,

o meu corpo não deixa que se juntem

as partes dispersas de ti em mim.

.

Eu sou talvez

aquele que procuras,

e as minhas dúvidas a tua voz

chamando do fundo do meu coração.

rosto

Manuel  António  Pina

Poema primeiro
Novembro 28, 2012


Gosto-te. E desta certeza
se abre a manhã como uma imensa
rosa de desejo indestrutível. O futuro
é o próximo minuto, para além
da infatigável religião dos meus versos,
em cuja luz me acendo, feliz e nu.
O meu sorriso conhece a bondade
dos animais, o poder frágil das corolas,
e repete o nome feminino dos arcanjos de
peitos redondos, perfumados
pelas giestas dos caminhos
do céu.

Gosto-te. Amarrado
pelos meus braços de beduíno do sol,
pobre senhor dos desertos,
profeta da distância que há dentro das palavras,
onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla
da mais inquieta serenidade.

Gosto-te. E tenho sido
feliz, por nunca ter seguido os trilhos
que me quiseram destinar. Aqui
e ali me pergunto, despudoradamente. E sei
que não sei mentir. É por isso,
que recolho na face a luz imprescindível
ao orgulho dos peixes
e dos frutos.

Gosto-te. Na-na-na, na-ô…
Na-na-na, na-ô… na-nô…
Canta o espírito do caminho,
canta para mim e canta para ti, eleva
o coração das grandes árvores, coração
de seiva e de coragem,
sangue fresco e verde, apaixonado
e doce,
de tanto contemplar o perfil das tardes.

Gosto-te. Mas “longe”
é uma palavra húmida, grávida,
onde os sinos da erva tocam
para convocar as sílabas. E,
ao procurar-te, tremo apenas
de ternura
para que nem mesmo a inteligente brisa
da manhã
possa dar por mim.
Mais discreto que isto
é impossível.

*

JOAQUIM PESSOA,  em  GUARDAR O FOGO

1990
Setembro 15, 2011

Se soubesse o que procuro
saberia que água pedir neste momento
e a que árvore pertence
este rumor de folhas sob o vento.

De quanto quis saberia a entoação
a que o coração responde nos ardis
que a obscuridade entrega
quando o contágio da memória
me absolve do que nunca deveria
arrepender-me.

Quanto busco não só é indizível
como não tem refúgio certo
entre os ramos hostis do reencontro,

esse incêndio do acaso no ocaso.

Amadeu  Baptista


Procura
Agosto 28, 2010

Se procurar bem você acaba encontrando.

Não a explicação (duvidosa) da vida,

mas a poesia (inexplicável) da vida.

Carlos Drummond de Andrade

Andei à minha procura
Maio 28, 2010

 

Andei á minha procura
P’las ruas onde nasci
Percorri minha amargura
Da procura, nada vi

Fui procurar na alegria
No sonho, no sofrimento
Só encontrei foi tormento
De sonhos estava vazia

Então passei p’la saudade
P’la rua e p’lo meu jardim
Perguntei à mocidade
Se havia sinal de mim

Fui aos sonhos de criança
Mas sabia de antemão
Que qual fosse a lembrança
Me feriu o coração

Andei á deriva no mar
Destas minhas ilusões
Mas só sofri decepções
Pois não me fui encontrar

E nesta procura de dor
De tanto procurar enfim
Encontrei-te meu amor
No que restava de mim.

Autor desconhecido

 

Três coisas
Fevereiro 8, 2009

borboleta

De tudo ficam três coisas :

a certeza de que estamos sempre começando…

a certeza de que precisamos de continuar…

a certeza de que seremos interrompidos

antes de terminar…

.

Portanto devemos :

fazer da interrupção um caminho novo…

da queda, um passo de dança…

do medo, uma escada…

do sonho, uma ponte…

da procura, um encontro…

.

 Fernando Pessoa