deixa
Janeiro 17, 2019

deixa que as palavras
te procurem
trazidas pelo sentir
de tudo

será poema se for
que isso te não preocupe

deixa que os olhos poisem
sobre tudo em tudo penetrem
e tragam consigo o seres

nada é novo
senão o teu olhar
o teu sentir

o teu dizer
nada acrescenta
a coisa nenhuma

por isso
deixa que as palavras
sejam em ti

0 ahcravo_DSC_6406 regata moliceiros

A. H. Cravo

Mundo das Ideias
Setembro 10, 2018

Se a minha luz não te possui ao meio-dia,

também não tem a tua sombra,

é este o momento

em que mais te procuram

os cavalos intrépidos,

e eu nem tenho um poema.

.

Sem amor,

vemos apenas as sombras das outras pessoas,

só o amante vê a sua amada

ao meio-dia,

ma hora do esquecimento,

e eu vi-te a ti

com o sol no seu zénite.

.

Não tenhas medo do amor,

minha amada,

não temas a impulsividade

dos cavalos intrépidos,

a única luz que não traz sofrimento

é a do sol no seu zénite,

porque a estrela íntima

não se reflecte em sombras

ao meio-dia.

sol 1

Joel  Henriques

Procura-te
Março 23, 2015

não procures no que lês
o eu que o escreveu
procura-te

aceitares ou recusares
as palavras lidas
é seres tu

será sempre morta a escrita
que não provoque no leitor
repulsa aceitação ou
no limite da comunhão o
“porque não fui eu?”

se te sentas nas minhas palavras
e adormeces
de nada serviu tê-las escrito

não me procures no que leste
procura-te porque o fizeste

chama-arcoiris

A. H. Cravo

Carta a Sophia
Outubro 14, 2012

CARTA A SOPHIA
OU
O QUINTO POEMA DO PORTUGUÊS ERRANTE

… Querida Sophia: como os índios do seu poema
também eu procurei o país sem mal.
Em dez anos de exílio o imaginei
como os índios utópicos também eu queria
um outro Portugal em Portugal.
Mas quando regressei eu não o vi
como eles me perdi e nunca achei
o país sem mal.

Talvez a própria vida seja isto
passar montanha e mar sem se dar conta
de que o único sentido é procurar.
Como os índios do seu poema eu não desisto
sou um português errante a caminhar
em busca do país que não se encontra.

MANUEL ALEGRE,  em  LIVRO DO PORTUGUÊS ERRANTE

O meu Impossível
Setembro 22, 2010

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,

é um brasido enorme a crepitar!

Ânsia de procurar sem encontrar

a chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa

é nada ser perfeito. É deslumbrar

a noite tormentosa até cegar,

e tudo ser em vão! Deus, que tristeza!

Aos meus irmãos na dor já disse tudo

e não me compreenderam!… Vão e mudo

foi tudo o que entendi e o que pressinto…

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora

contar, não a chorava como agora,

irmãos, não a sentia como a sinto!…

Florbela Espanca