Arte poética
Dezembro 20, 2015

Faço um poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes com o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
na água, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
regista, como o dedo segue
a linha da leitura,
como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas ás vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste
e quer morrer assim.
Faço poema às vezes.
.
Faço poema sempre como vivo.

regato 2

Walmir Ayala

As palavras
Janeiro 22, 2009

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho  apenas.

………

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam :

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

………

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e  são a noite.

E  mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

………

Quem as escuta ? Quem

as  recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras ?

coraislf4

 Eugénio de Andrade