Bilhete
Setembro 3, 2017

Se tu me amas, ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados.

Deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

Mário Quintana

Não te amo
Outubro 28, 2016

Não te amo, quero-te: o amor vem da alma.
E eu na alma – tenho a calma,
a calma do jazigo.
Ai, não te amo, não.
.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
a trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não.
.
Ai, não te amo, não; e só te quero
de um querer bruto e fero
que o sangue me devora,
não chega ao coração.
.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
que lhe luz na má hora
da sua perdição?
.
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
do mau feitiço azado
este indigno furor.
Mas oh, não te amo, não.
.
E infame sou, porque te quero; e tanto
que de mim tenho espanto,
de ti medo e terror…
Mas amar!… não te amo, não.

lonely-742719

Almeida Garrett

Entre querer e poder
Novembro 21, 2011

 Entre querer e poder

há apenas uma imensidão de lagos transparentes
de silêncios e verdades
de hesitações
Entre querer e poder há um tempo
que se fechou em armários
entre fotografias e verdades
Entre querer e poder há uma lei
inexorável
a lei do tempo
de papéis velhos sem cores nem rei
dos restos do momento
Entre querer e poder
há uma imensidão de lagos transparentes
e um lamento

Raul Cordeiro

Soneto da 4ª feira de Cinzas
Março 9, 2011

Por seres quem me foste, grave e pura

em tão doce surpresa conquistada,

por seres uma branca criatura

de uma brancura de manhã raiada ;

 

por seres de uma rara formosura

malgrado a vida dura e atormentada,

por seres mais que a simples aventura

e menos que a constante namorada ;

 

porque te vi nascer, de mim sozinha

como a noturna flor desabrochada

a uma fala de amor, talvez perjura ;

 

por não te possuir, tendo-te minha,

por só quereres tudo, e eu dar-te nada,

hei-de lembrar-te sempre com ternura.

 

Vinicius  de  Moraes

 

 

 

Amar
Julho 8, 2010

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
e vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
e em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
quase que prefiro não a encontrar,
para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Alberto Caeiro