espelho
Fevereiro 16, 2018

espelho, és a terra onde as raízes rebentam de mistérios.

repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes

os olhares sem fim das coisas paradas. repetes o meu olhar.

espelho, és a parede e a pele cansada, és um silêncio a morrer a noite,

és o que ninguém quer, a verdade mais triste e cansada por dentro.

repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes

a desgraça, a miséria e o desespero.

espelho, quis conhecer-te e perdi-me de ti.

espelho

José Luís Peixoto

Exausta
Abril 22, 2015

Eu quero uma licença de dormir,
perdão p´ra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

sem-titulo3

. Adélia Prado .

A noite na ilha
Maio 29, 2014

Dormi contigo toda a noite

junto ao mar, na ilha.

Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,

entre o fogo e a água.

.

Os nossos sonos uniram-se

talvez muito tarde

no alto ou no fundo,

em cima como ramos que um mesmo vento agita,

em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

.

O teu sono separou-se

talvez do meu

e andava à minha procura

pelo mar escuro

como dantes,

quando ainda não existias,

quando sem te avistar

naveguei a teu lado

e os teus olhos buscavam

o que agora

– pão, vinho, amor e cólera –

te dou às mãos cheias,

porque tu és a taça

que esperava os dons da minha vida.

.

Dormi contigo

toda a noite enquanto

a terra escura gira

com os vivos e os mortos,

e ao acordar de repente

no meio da sombra

o meu braço cingia a tua cintura.

Nem a noite nem o sono

puderam separar-nos.

.

Dormi contigo

e, ao acordar, a tua boca,

saída do teu sono,

trouxe-me o sabor da terra,

da água do mar, das algas,

do âmago da tua vida,

e recebi teu beijo,

molhado pela aurora,

como se me viesse

do mar que nos cerca.

ilha

Pablo Neruda

Onde pus a ‘sperança
Fevereiro 1, 2012

Onde pus a ‘sperança, as rosas

murcharam logo.

Na casa, onde fui habitar

o jardim, que eu amei por ser

ali o melhor lugar,

e por quem essa casa amei –

deserto o achei,

e, quando o tive, sem razão p’ra o ter.

.

Onde pus a afeição, secou

a fonte logo.

Da floresta, que fui buscar

por essa fonte ali tecer

seu canto de rezar –

quando na sombra penetrei,

só o lugar achei

da fonte seca, inútil de se ter.

.

P’ra quê, pois, afeição, ‘sperança

se perco, logo

que as uso, a causa p’ra as usar,

se tê-las sabe a não as ter?

.

Crer ou amar –

até à raiz, do peito onde alberguei

tais sonhos e os gozei,

o vento arranque e leve onde quiser

e eu os não possa achar !

Fernando  Pessoa

Pablo Neruda 2
Setembro 22, 2011

Alegoria moral
Maio 25, 2011

Um dia em que a mulher nasça do caule da roseira
que cresce no quintal; ou um dia em que a nuvem
desça do céu para vestir de névoa os seus
seios de flor: seguirei o caminho da água nos
canteiros que me levam ao caule, e meter-me-ei
pela terra em busca da raíz.

Nesse dia em que os cabelos da mulher se
confundirem com os fios luminosos que o sol
faz passar pela folhagem; e em que um perfume
de pólen se derramar no ar liberto da névoa:
procurarei o fundo dos seus olhos, onde corre


uma transparência de ribeiro.

Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,
despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu
da madrugada. Então, vendo-a nascer com o dia,
desenharei nuvens com a cor dos seus lábios, e
empurrá-las-ei para o mar com o vento brando
da sua respiração.

Depois, cobrirei essa mulher que nasceu da roseira
com o lençol celeste; e vê-la-ei adormecer, como
um botão de rosa, esperando que a nuvem desça
do céu para a roubar ao sonho da flor.

Nuno Júdice

A meio do caminho
Maio 24, 2010

 

Fico entre o céu e a terra.

Choro só para dentro.

Sou como a árvore nua

que ao alto os ramos indica:

ergue as asas, mas não voa,

tem raizes, mas não desce.

Alberto de Lacerda

Saudade
Maio 12, 2010

Magoa-me a saudade

no sobressalto dos corpos

ferindo-se de ternura

dói-me a distante lembrança

do teu vestido

caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade

do tempo em que te habitava

como o sal ocupa o mar

como a luz recolhendo-se

nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo,

tua noite sem remédio

tua virtude, tua carência

eu

que longe de ti sou fraco

eu

que já fui água, seiva vegetal

sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz

de novo, meu amor,

a transparência da água

dá ocupação à minha ternura vadia

mergulha os teus dedos

no feitiço do meu peito

e espanta na gruta funda de mim

os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto

XI
Julho 10, 2008

Não te analises.

.

Não procures no perfume das flores

a tempestade das raizes.

.

Nem queiras

desatar o fumo

do carvão das fogueiras.

.

Ama

com ossos de cinza

e  cabelos de chama.

.

E deixa-te viver

em rio a correr…

e-agora2

 José Gomes Ferreira