Traição
Fevereiro 13, 2017

tive vinte anos e tentei

usar palavras nessa altura

e do que disse ao que direi

ficou-me o gosto da procura

mas duvidoso é o que encontrei.

.

agora, com cinquenta e quatro,

muito delas se evaporou

tal como as deixas num teatro

em que ninguém representou,

.

que são assim modalidades

de quanto em mim é a mais verbal

traição das realidades,

oficinal e ficcional,

entre inverdades e verdades.

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Vasco Graça Moura

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Não é preciso
Agosto 26, 2016

Não é preciso que a realidade exista

para acreditarmos nela. Na verdade,

se não existir tudo é mais luminoso.

Mundo, evidência submissa e soberana.

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Pedro Mexia

A espantosa realidade das cousas
Março 12, 2014

A espantosa realidade das cousas
é a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
e é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
e quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
e todos os meus poemas são diferentes,
porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
e acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
porque o penso sem pensamentos
porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
e eu admirei-me, porque não julgava
que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
o valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro,  em  “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sonho
Fevereiro 9, 2014

Um cair de cabelos nos teus ombros,

um suspiro preso à lembrança que

ficou, um brilho que se demora nos

olhos à janela, um eco que não passa

.

na memória de um murmúrio, o

abraço em que o tempo se suspende,

a voz que dança por entre ruídos e

silêncio, as mãos que não se libertam

.

num gesto de despedida, lábios que

outros lábios procuram, uma luz

que alastra na sombra que desce,

.

e uma sombra que se ilumina quando

a noite já cresce: tu, sonho que

faz real a realidade em que te sonho.

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Nuno  Júdice

O amor é uma companhia
Junho 10, 2012

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
e ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

Esperança
Junho 22, 2011

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade.

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.

Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?
Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

Almada Negreiros

Encontro
Maio 11, 2011


Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas
torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.

Almada Negreiros

Proximidades…
Abril 27, 2011

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Cada um que passa em nossa vida passa sozinho…
Porque cada pessoa é única para nós,
e nenhuma substitui a outra.
Cada um que passa em nossa vida passa sozinho,
mas não vai só…
Levam um pouco de nós mesmos
e nos deixam um pouco de si mesmos.
Há os que levam muito,
mas não há os que não levam nada.
Há os que deixam muito,
mas não há os que não deixam nada.
Esta é a mais bela realidade da vida…
A prova tremenda de que cada um é importante
e que ninguém se aproxima do outro por acaso…

Saint Exupéry

Em teu louvor
Setembro 12, 2010

Hoje é que percebi : sigo esquecido e alheio,

e há muito tempo já que não falo de nós.

Não precisas no entanto de ter nenhum receio,

se versos não te dou, é que hoje, em meu enleio,

tudo esqueço por ti… quando estamos a sós…

Ontem, era o começo, era o sonho, ansiedade!

A vida uma esperança a repartir por dois…

Hoje… hoje é tão boa a nossa intimidade

que é bastante viver, e a própria realidade

não nos deixa pensar no que virá depois…

  …

Ontem, fiz do meu verso uma arma de conquista,

e teci confidências preludiando o amor…

Hoje, (perdoa se o homem sobrepuja o artista!),

quando em tua nudez, surge bela e imprevista,

minha alma em minhas mãos tem ânsias de escultor.

Vivamos!.. E prometo então para mais tarde

mil versos,(sabes bem que um dia hei-de fazê-los…).

Agora, basta que te deseje e te ame sem alarde

a mergulhar na sombra o rosto em teus cabelos.

Mais tarde, sim, mais tarde, hás-de tê-los, querida,

ressonâncias de amor, versos puros e francos,

cantos de ave ao sol poente, última ária da vida,

quando a noite cerrar meus olhos, comovida,

e o luar tingir de prata os teus cabelos brancos!…

Agora, não… Agora a vida é bela, é louca,

nos sentidos em festa e em sons primaveris;

é o beijo que procuro e mordo em tua boca!

…é a sombra que se vai… é a noite curta e pouca…

(são tão curtas as noites quando se é feliz!)

Sou assim, quando vivo não escrevo, vivo!

E não brotam meus versos de desejos vãos…

Se tenho em minhas mãos o teu corpo cativo,

é inútil insistir, meu pensamento é esquivo.

Só tu existes, tu! e a ânsia das minhas mãos…

Ontem, dava~te versos, versos que relias

com um estranho langor nos olhos extasiados…

Hoje, encho de beijos tuas mãos vazias,

e esquecidos do tempo, vão rolando os dias

…e as noites vão rolando em teus olhos cerrados!

Hoje é que percebi num segundo de sonho :

já não faço mais versos sobre o nosso amor…

Mas, que importa? Se vejo o teu olhar risonho…

os versos que em silêncio em teu corpo componho

são os mais belos talvez que faço em teu louvor!

J. G. Araújo Jorge

Cinzas-XXIII
Outubro 30, 2009

Hoje para mim  o Sonho e a Realidade

confundem-se no mesmo fel lascivo

de subterrâneo sujo…

Mentira?… Verdade?…

Sei lá se sonho ou vivo!

( Fujo.)

angelalejandra

José Gomes Ferreira