Porque a recusas.
Janeiro 8, 2018

Porque a recusas, esta cidade despovoa-se, o granito
torna-se subitamente uma resina pegajosa e hostil.

As gaivotas fogem para o mar com gritos roucos, um
arrepio atravessa as ruas como sinal de inverno.

Encontro as portas fechadas ao longo das paredes; um
curto circuito acaba de apagar o sol, a lua vazia ergue
uma maré que escava furiosamente as praias.

O espaço minga, as folhas secas tombam com um riso
grato: sabem que foram nas árvores a última primavera.

Um coração está pousado no solo e eu tropeço na sua
derradeira pulsação. Já o vi algures, creio, antes do medo.

Foz

Egito Gonçalves    em    Luz Vegetal

Recuso-me
Outubro 27, 2015

Recuso-me a ficar amolecido,
tragicamente cilindrado,
e, muito antes de lutar – vencido,
e, muito antes de morrer – violado.
.
Recuso-me ao silêncio e à mordaça.
Serei independente, livre e exacto.
A verdade é uma força que ultrapassa
a própria dimensão em que combato.
.
Recuso-me a servir a violência,
embora a minha voz de nada valha,
mas que me fique ao menos a consciência
de que tentei romper esta muralha.
.
Recuso-me a ter medo e a estiolar
na concha dos poetas sem mensagem.
Que me levem o corpo e a coragem
mas que me fique esta voz para cantar.

homem-tristeza

João Apolinário

A um poeta que rejeitou a sua obra
Abril 12, 2014

Não entres de bom modo nesta noite escura, disse outro poeta,

não entres sem deixar atroar pelas paredes todas

a violência do teu “não”.

.

Querem sempre reduzir-nos a uma pequena frase

de resumo e simplificação,

la petite phrase qui nous conduit au monde plus vrai de l’art

e assim nos vem roubar toda a música do mundo,

não é isto?

Não consintas.

.

Se nada podemos fazer contra a estátua de pedra

ou de sal

em que nos querem transformar,

ao menos deixemos ficar o grito

dissonante

da nossa recusa,

com toda a raiva e o amor que os brutos não entendem.

.

E só depois morrer.

noite 2

Luís Filipe Castro Mendes

Poema sobre a recusa
Agosto 7, 2008

Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

.

nem na polpa dos meus

dedos

se ter formado o afago

.

sem termos sido a cidade

nem termos rasgado pedras

.

sem descobrirmos a cor

nem o interior da erva ?

.

Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

.

minha raiva de ternura

meu ódio de conhecer-te

minha alegria profunda.

pedras1

 Maria Teresa Horta

À espera
Abril 25, 2008

Não sei o que tu pensas.

Não sei se me entendeste hoje.

Afinal não sei quase nada de ti.

Só que algo existe entre nós.

O que é não sei,

porque te recusas a falar,

porque foges de mim,

apesar de me procurares.

É difícil viver assim,

suspensa no imprevisível,

à espera

de dias mais claros…

tempo 3

Diana  Sá