Porto sentido
Janeiro 2, 2018

porto

Quem vem e atravessa o rio

junto à serra do Pilar,

vê um velho casario

que se estende até ao mar.

.

Quem te vê ao vir da ponte

és cascata sanjoanina

erigida sobre um monte,

no meio da neblina.

,

Por ruelas e calçadas,

da Ribeira até à Foz,

por pedras sujas e gastas

e lampiões tristes e sós.

.

Esse teu ar grave e sério,

num rosto de cantaria

que nos oculta o mistério

dessa luz bela e sombria.

.

Ver-te assim abandonado

nesse timbre pardacento,

nesse teu jeito fechado,

de quem mói um sentimento.

.

E é sempre a primeira vez,

em cada regresso a casa,

rever-te nessa altivez

de milhafre ferido na asa.

Carlos Tê

A uma desconhecida
Janeiro 26, 2016

Encontrei-te por acaso no meio do ruído,

calma e refulgente.

Deixaste-me um retrato, depois desapareceste,

ficou apenas um rasto de sal.

Em troca, espero o teu regresso da vertigem.

.

Todos os dias pressinto a tua fotografia

confidente, longínqua,

isolado por entre a multidão.

E sei, desde o início, que só amarei

quando, por acaso no meio do ruído,

alguém semelhante a ti a reclame.

amores-impossiveis-3162451-1238

Joel  Henriques

A uma mulher
Maio 18, 2011

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
estavas trémula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
e a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
e que era preciso fugir para não perder o único instante
em que foste realmente a ausência de sofrimento
em que realmente foste a serenidade.

 

Vinicius  de  Moraes

A mão no arado
Maio 20, 2010

Feliz aquele que administra sabiamente

a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias

Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta

entretecer nas mãos um coração tardio

Oh! como é triste arriscar em humanos regressos

o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão

ao longo do mar transbordante de nós

no demorado adeus da nossa condição

É triste no jardim  a solidão do sol

vê-lo desde o rumor e as casas da cidade

até uma vaga promessa de rio

e a pequenina vida que se concede às unhas

Mais triste é termos de nascer e  morrer

e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem

regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

É triste no outono concluir

que era o verão a única estação

Passou o solidário vento e não o conhecemos

e não soubemos ir até ao fundo da verdura

como rios que sabem como encontrar o mar

e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver

através de palavras de uma água para sempre dita

Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada

entre o fumo e o domingo na tarde de novembro

e ter como futuro o asfalto e muita gentee atrás a vida sem nenhuma infância

revendo tudo isto algum tempo depois

A tarde morre pelos dias fora

É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

Ruy Belo

Cada dia
Junho 9, 2009

Cada dia é mais evidente que partimos

sem possível regresso no que fomos,

cada dia as horas se despem mais do alimento :

não há saudade nem terror que baste.

Casa à margem

Sophia de Mello Breyner Andresen