Eco
Agosto 2, 2017

Hoje, perguntando onde estás, e o

que fazes, ouço as palavras tristes

da solidão que me responde, sem

nada me dizer, ao dizer-me tudo.

.

O que fazes e onde estás, pergunto

ao silêncio que me deixaste, e ouço

em mim a resposta, num eco que

vem de ti, perguntando por mim.

.

E neste espelho que entre mim e ti

a ausência constrói, outro espelho

reflecte o vazio da sua imagem, até

.

esse infinito em que a minha pergunta

te responde, para que me devolvas

o eco em que as nossas vozes se juntam.

neblina

Nuno  Júdice

Leve e delicada
Dezembro 12, 2014

Leve e delicada

como a sombra da gipsofila na parede

assim é a tua ternura.

Tem a sombra das coisas impalpáveis

mas respira e aquece

como o sangue das rosas.

,,,

Sem ela

os caminhos da minha inquietação

iriam desaguar

no terrível vazio de calar-me

de perder-me nas florestas da noite.

   …

Sem ela

nenhuma das minhas lágrimas

valeria a pena

nenhuma das minhas dúvidas

valeria a dúvida

da interrogação que te ponho

e me faz sentir segura

nos braços da tua resposta.

A tua ternura é o meu berço

o meu barco o meu brinco

o meu brinquedo

o meu urso de pêlo

o meu lençol de linho

o meu segredo.

Com ela me enfeito e me consolo

e me envolvo

e me acalmo

e me adormento

e me esqueço da morte.

Rosa Lobato de Faria

Já?
Novembro 30, 2014

já tentaste praticar o bem

fazendo mal?

já tentaste praticar o mal

fazendo bem?

já tentaste praticar o bem

fazendo bem?

já tentaste praticar o mal

fazendo mal?

já tentaste praticar o bem

não fazendo nada?

já tentaste praticar o mal

fazendo tudo?

já tentaste praticar tudo

não fazendo nada?

e o contrário, já tentaste?

já?

seja qual for a tua resposta,

não sei que te diga.

man_down_the_road_by_goldenso

Alberto Pimenta

Porque cada segundo é precioso…
Julho 8, 2013

Como se tivesse todo o tempo, não
se lembra do tempo que foi, nem pensa no que
há-de vir. O tempo é a mesa vazia onde
nada cabe, como se estivesse cheia; e
entre passado e futuro as sombras
alargam-se pelo chão, desenhando
a escadaria por onde desceu, até
hoje, numa incerteza de passos
infalíveis.

tempo

Nuno Júdice

Hoje
Novembro 12, 2012

Hoje não sei do que sou capaz.

.

Às vezes não procuramos respostas.

Outras, não conseguimos vê-las.

.

De vez em quando a inteligência deixa-nos

como um cônjuge saturado, incapaz de nos suportar.

Mas temos obrigação de viajar

espreitando pelas janelas da água, pelo postigo da indulgência,

espalhar pela distância o embaraço

de modo a regressar felizes como crianças exibindo

troféus coloridos de algodão de açúcar.

.

Disputamos muitos jogos num estádio vazio

desperdiçando as mais flagrantes oportunidades,

porque aceitamos como normal o medo de vencer.

E no entanto todos os momentos são bons

para escutar o mar ou palmilhar desertos

com uma candeia ou com um sol por companheiros

que possam ajudar-nos a dissipar o conjunto das sombras

e, na dúvida, reconhecer a forma das coisas,

as que nos pertencem e as que nunca serão nossas

mas que queremos nossas por não nos pertencerem.

.

O que puderes tocar, tenta alcançá-lo.

O que não puderes saber, não ignores.

Constrói a casa em pleno mar.

Percorre a estrada em pleno voo.

Joaquim  Pessoa em   O Pouco é para Ontem

Em frente do mar
Junho 22, 2012

Pergunto a mim próprio em que noite nos perdemos?,
… que desencontro nos levou de um a outro lado das
nossas vidas? e que caminhos evitámos para que os nossos
passos se não voltassem a cruzar? Mas as perguntas que
te faço, hoje, já não têm resposta. Sento-me contigo,
nesta mesa da memória, e partilho o prato da solidão. Tu,
na cadeira vazia onde te imagino, sacodes o cabelo com
um aceno de ironia. E dou-te razão: as coisas podiam
ter sido de outro modo. Não te disse as palavras que
esperaste; e havia o mar, com as suas ondas, nessa tarde
em que me puxaste para longe da cidade, como se
a noite não nos obrigasse a voltar, quando o horizonte
se apagou a nossa frente. Depois disso, nenhuma
pergunta tem resposta. O que é absurdo há-de continuar
absurdo, como o horizonte não se voltou a abrir,
trazendo de volta os teus olhos que me pediam que
os olhasse, até que a noite me impedisse de o fazer.

NUNO JÚDICE,  em  O ESTADO DOS CAMPOS

Dia 46
Março 12, 2012

São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pequenas.

… São as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras.

As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas.
Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo.
Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha.

São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita.

São as pessoas como tu que nunca nos pedem nada mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor.

São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram respostas para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração.

As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos.
Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino.

São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo.

couple2
Joaquim  Pessoa  em  Ano Comum

18
Novembro 16, 2011

Se hoje á noite chover

talvez me vá estender ao sol da tua face

como se acreditasse

que o outono voltou.

E no banco de ver

dourados e vermelhos

vou cruzar os joelhos

ao lado de quem sou.

   …

Vou à esquina de ti comprar castanhas

guardá-las nas entranhas

dos bolsos de inventar.

Vou ao sótão de nós buscar a lenha

de acender a fogueira de falar.

Cortarei o pão quente da conversa

perguntas e respostas e risadas

que são bolos de festa.

Falaremos do sol, das madrugadas,

do mar e da floresta.

E se ainda chover

quando a vitrola da alegria der

compassos soltos de uma moda antiga

(que ninguém canta mais)

trocaremos palavras rituais

que servem p’ra fazer uma cantiga

(trigo, linho, papoila, malmequer,

saudade, rapariga…)

Diremos orações no tom do vento

exconjurando fantasmas que há em nós.

Faremos o amor visto por dentro

junto à lareira de não estarmos sós.

Ouviremos na cama o som da chuva

(sempre chove na sede de quem quer).

De folha em folha seca

de uva em uva

juntaremos os corpos à saúde

desse outono dourado que vier.

Porém se tudo não surtir efeito

e disseres que novembro não voltou,

vou pousar a cabeça no teu peito.

Saberás que o outono já chegou.

Rosa Lobato de Faria

 

Não me inquieto
Outubro 11, 2010

Não me inquieto

quando não recebo as respostas

das perguntas que não fiz.

Eu me conformei

em reservar alguma coisa

de ti para saber depois.

Um pouco do nosso amor

será póstumo.

É  recomendável

não descobrir todos os segredos.

 

Fabrício Carpinejar

Solidão
Junho 23, 2010

Dias de solidão.

Há-os por muito que os não deseje.

Caminhos que devo percorrer sozinho.

Perguntas mudas, no ar.

As respostas, essas virão com o vento.

E serão minhas. Só minhas.

Daí a solidão.

Pedro