Poema do Silêncio
Janeiro 10, 2019

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
a carvão, a sangue, a giz,
sátiras e epigramas nas paredes
que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
que nada me dariam do infinito que pedi,
– que ergui mais alto o meu grito
e pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
eis a razão das épi-trági-cómicas empresas
que, sem rumo,
levantei com sarcasmo, sonho, fumo…

O que buscava
era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais, ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
sair deste meu ser formal e condenado,
erigi contra os céus o meu imenso Engano
de tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
procurei fugir de mim,
mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
sofro por este chão que aos pés se me pegou,
sofro por não poder fugir.
sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição…)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
nunca os usei nem usarei,
se nada do que levo a efeito vale,
que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
era por um de nós. E assim,
neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
do que a própria imensa dor
de compreender como é egoísta
a minha máxima conquista…

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
e o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
e sobre mim de novo descerá…

Sim, descerá da tua mão compadecida,
meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
saciarão a minha fome.

José Régio  em  ‘As Encruzilhadas de Deus’

Do sentimento trágico da Vida
Junho 29, 2011


Não há revolta no homem 

que se revolta calçado. 
O que nele se revolta 
é apenas um bocado 
que dentro fica agarrado 
à tábua da teoria. 

Aquilo que nele mente 
e parte em filosofia 
é porventura a semente 
do fruto que nele nasce 
e a sede não lhe alivia. 

Revolta é ter-se nascido 
sem descobrir o sentido 
do que nos há-de matar. 

Rebeldia é o que põe 
na nossa mão um punhal 
para vibrar naquela morte 
que nos mata devagar. 

E só depois de informado 
só depois de esclarecido 
rebelde nu e deitado 
ironia de saber 
o que só então se sabe 
e não se pode contar. 

Natália Correia   em   “Poemas (1955)”