Espelho
Fevereiro 26, 2017

 

Que rompam as águas:
é de um corpo que falo.
Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nem outra casa.

É de um rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
de um pequeno charco de luz.

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Eugénio de Andrade

É sempre agora
Outubro 7, 2016

O tempo não existe:
eu decreto assim.
Esses vultos esquivos
são rostos, são nomes,
são as horas felizes
(são o que foi embora?).

O tempo não existe:
tudo continua aqui,
e cresce
como uma árvore
pesada de frutos que são
máscaras, palavras, promessas,
bocas ferozes.

O tempo não existe:
tudo se resume ao instante.
O antes disso
é um rio que corre
mas não passa.
(Basta chamar:
é sempre agora).

foto12relogio

. Lya Luft    em    O Tempo é um Rio que Corre .

IX
Novembro 8, 2015

De tanto te imaginar de olhos fechados,
sei lá se te perdi!
E se esta sombra com quem voo nos telhados
és tu em vez de ti.
.
Só sei que quando vieres, real,
a cheirar a pele e a punhal,
com entranhas e caveira…
.
…terei de coser a tua sombra à minha,
atar o rio à nuvem da tardinha,
a labareda ao fumo da fogueira.

amores-impossiveis-3162451-1238

José Gomes Ferreira

A outra morada
Maio 16, 2015

É de Schumann, a música.

Dói, acalma, é transparência

última da rosa, a de Dante

no Paraíso;

não há outra morada,

outro cristal, outra ave;

há somente esse rio, esse gume

que fere, apazigua,

o corpo, a alma – quem sabe?

   música

Eugénio de Andrade   em   Rente ao Dizer (1992)

Na sombra
Setembro 19, 2014

No final das tardes de Setembro,

procurámos o horizonte.

O futuro era um mar

de onde nada sobressaía.

.

Campos de searas quase impossíveis

esperavam a noite,

os rios desconheciam a sua origem,

perdidos na vastidão.

.

Ainda aguardámos outro Inverno

com expectativa e receio,

mas existe um azul

que permanece e se renova.

.

Adormecemos tranquilos,

não mais precisámos de sombra.

trovoada

Joel  Henriques

É por ti
Junho 5, 2014

É por ti  que eu escrevo que não és musa nem deusa

mas a mulher do meu horizonte

na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia

Por ti desejo o sossego oval

em que possas identificar-te na limpidez de um centro

em que a felicidade se revele como um jardim branco

onde reconheças a dália da tua identidade azul

É porque amo a cálida formosura do teu torso

a latitude pura da tua fronte

o teu olhar de água iluminada

o teu sorriso solar

é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte

nem a túmida integridade do trigo

que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis

para a oferenda do meu sangue inquieto

onde pressinto a vermelha trajectória de um sol

que quer resplandecer em largas planícies

sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

flor_amarela_43

António Ramos Rosa

Com palavras
Abril 4, 2014

Com palavras me ergo em cada dia! 
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto 
e saio para a rua. 
Com palavras – inaudíveis – grito 
para rasgar os risos que nos cercam. 
Ah!, de palavras estamos todos cheios. 
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor 
em quatro ou cinco línguas. 
Tomamo-las à noite em comprimidos 
para dormir o cansaço. 
As palavras embrulham-se na língua. 
As mais puras transformam-se, violáceas, 
roxas de silêncio. De que servem 
asfixiadas em saliva, prisioneiras? 
Possuímos, das palavras, as mais belas; 
as que seivam o amor, a liberdade… 
Engulo-as perguntando-me se um dia 
as poderei navegar; se alguma vez 
dilatarei o pulmão que as encerra. 
Atravessa-nos um rio de palavras: 
Com elas eu me deito, me levanto, 
e faltam-me palavras para contar…

silence

Egito  Gonçalves

Port Wine
Março 28, 2014

V.Porto

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

Joaquim Namorado

Beleza
Março 19, 2014

Porto

Entrei no café com um rio na algibeira

e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira

Passagem
Julho 23, 2013

passage

 

Com que palavras ou que lábios

é possível estar assim tão perto do fogo,

e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,

tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,

e não só uma voz de ninguém.

Onde, porém? Em que lugares reais,

tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,

e estamos, se possível, ainda mais sós,

sem forma e vazios, inocentes de nós,

como diremos ainda margens e como diremos rios?

À Inês

Manuel António Pina   em    Como se desenha uma casa (Assírio & Alvim)