O Poeta
Outubro 22, 2018

O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.

MIA COUTO

Anúncios

Dia
Março 12, 2018

O dia foi de chumbo em sua mansa calma.

E foi um rio bem fundo em que as palavras,

à partida discretas, mais pesaram.

E a morte percutiu (coexistiu)

num gume de espada incendiada.

E as pedras afluíram (confluíram)

num sulfuroso rosto à beira d’água.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

João Rui de Sousa

Porto sentido
Janeiro 2, 2018

porto

Quem vem e atravessa o rio

junto à serra do Pilar,

vê um velho casario

que se estende até ao mar.

.

Quem te vê ao vir da ponte

és cascata sanjoanina

erigida sobre um monte,

no meio da neblina.

,

Por ruelas e calçadas,

da Ribeira até à Foz,

por pedras sujas e gastas

e lampiões tristes e sós.

.

Esse teu ar grave e sério,

num rosto de cantaria

que nos oculta o mistério

dessa luz bela e sombria.

.

Ver-te assim abandonado

nesse timbre pardacento,

nesse teu jeito fechado,

de quem mói um sentimento.

.

E é sempre a primeira vez,

em cada regresso a casa,

rever-te nessa altivez

de milhafre ferido na asa.

Carlos Tê

Espelho
Fevereiro 26, 2017

 

Que rompam as águas:
é de um corpo que falo.
Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nem outra casa.

É de um rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
de um pequeno charco de luz.

DSC00761

Eugénio de Andrade

É sempre agora
Outubro 7, 2016

O tempo não existe:
eu decreto assim.
Esses vultos esquivos
são rostos, são nomes,
são as horas felizes
(são o que foi embora?).

O tempo não existe:
tudo continua aqui,
e cresce
como uma árvore
pesada de frutos que são
máscaras, palavras, promessas,
bocas ferozes.

O tempo não existe:
tudo se resume ao instante.
O antes disso
é um rio que corre
mas não passa.
(Basta chamar:
é sempre agora).

foto12relogio

. Lya Luft    em    O Tempo é um Rio que Corre .

IX
Novembro 8, 2015

De tanto te imaginar de olhos fechados,
sei lá se te perdi!
E se esta sombra com quem voo nos telhados
és tu em vez de ti.
.
Só sei que quando vieres, real,
a cheirar a pele e a punhal,
com entranhas e caveira…
.
…terei de coser a tua sombra à minha,
atar o rio à nuvem da tardinha,
a labareda ao fumo da fogueira.

amores-impossiveis-3162451-1238

José Gomes Ferreira

A outra morada
Maio 16, 2015

É de Schumann, a música.

Dói, acalma, é transparência

última da rosa, a de Dante

no Paraíso;

não há outra morada,

outro cristal, outra ave;

há somente esse rio, esse gume

que fere, apazigua,

o corpo, a alma – quem sabe?

   música

Eugénio de Andrade   em   Rente ao Dizer (1992)

Na sombra
Setembro 19, 2014

No final das tardes de Setembro,

procurámos o horizonte.

O futuro era um mar

de onde nada sobressaía.

.

Campos de searas quase impossíveis

esperavam a noite,

os rios desconheciam a sua origem,

perdidos na vastidão.

.

Ainda aguardámos outro Inverno

com expectativa e receio,

mas existe um azul

que permanece e se renova.

.

Adormecemos tranquilos,

não mais precisámos de sombra.

trovoada

Joel  Henriques

É por ti
Junho 5, 2014

É por ti  que eu escrevo que não és musa nem deusa

mas a mulher do meu horizonte

na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia

Por ti desejo o sossego oval

em que possas identificar-te na limpidez de um centro

em que a felicidade se revele como um jardim branco

onde reconheças a dália da tua identidade azul

É porque amo a cálida formosura do teu torso

a latitude pura da tua fronte

o teu olhar de água iluminada

o teu sorriso solar

é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte

nem a túmida integridade do trigo

que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis

para a oferenda do meu sangue inquieto

onde pressinto a vermelha trajectória de um sol

que quer resplandecer em largas planícies

sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

flor_amarela_43

António Ramos Rosa

Com palavras
Abril 4, 2014

Com palavras me ergo em cada dia! 
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto 
e saio para a rua. 
Com palavras – inaudíveis – grito 
para rasgar os risos que nos cercam. 
Ah!, de palavras estamos todos cheios. 
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor 
em quatro ou cinco línguas. 
Tomamo-las à noite em comprimidos 
para dormir o cansaço. 
As palavras embrulham-se na língua. 
As mais puras transformam-se, violáceas, 
roxas de silêncio. De que servem 
asfixiadas em saliva, prisioneiras? 
Possuímos, das palavras, as mais belas; 
as que seivam o amor, a liberdade… 
Engulo-as perguntando-me se um dia 
as poderei navegar; se alguma vez 
dilatarei o pulmão que as encerra. 
Atravessa-nos um rio de palavras: 
Com elas eu me deito, me levanto, 
e faltam-me palavras para contar…

silence

Egito  Gonçalves