Não te rendas
Agosto 31, 2020

Não te rendas, ainda estás a tempo

de alcançar e começar de novo,

aceitar as tuas sombras

enterrar os teus medos,

largar o lastro,

retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,

continuar a viagem,

perseguir os teus sonhos,

destravar os tempos,

arrumar os escombros,

e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,

ainda que o frio queime,

ainda que o medo morda,

ainda que o sol se esconda,

e se cale o vento:

ainda há fogo na tua alma

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,

porque o quiseste e eu te amo,

porque existe o vinho e o amor,

porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,

tirar os ferrolhos,

abandonar as muralhas que te protegeram,

viver a vida e aceitar o desafio,

recuperar o riso,

ensaiar um canto,

baixar a guarda e estender as mãos,

abrir as asas

e tentar de novo

celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:

mesmo que o frio queime,

mesmo que o medo morda,

mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,

ainda há fogo na tua alma,

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque cada dia é um novo início,

porque esta é a hora e o melhor momento.

Porque não estás só, porque eu te amo.

despertares

Mário Benedetti

Lisboa ainda
Março 29, 2020

Lisboa não tem beijos nem abraços

não tem risos nem esplanadas

não tem passos

nem raparigas e rapazes de mão dadas

tem praças cheias de ninguém

ainda tem sol mas não tem

nem gaivota de Amália nem canoa

sem restaurantes sem bares nem cinemas

ainda é fado ainda é poemas

fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa

cidade aberta

ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste

e em cada rua deserta

ainda resiste.

Lisboa

Manuel Alegre ( 20/3/20 )

O homem que se senta a teu lado
Março 16, 2019

O homem que se senta a teu lado

e ouve de perto a tua voz tão doce

o riso que se infiltra no meu coração

invejo esse homem como se fosse um deus

Pois só de vê-lo a fala me falta

a língua me seca na boca e os olhos

me ficam cegos e surdos os ouvidos

o suor aninha-se na pele e o corpo

todo me treme e já desfaleço e verde

como as ervas fico e nem sequer respiro

Poderei eu viver com tal calamidade?

Bom

DEDICADO A UMA QUERIDA AMIGA MINHA

 Casimiro de Brito

Tenho fome
Janeiro 19, 2017

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.
.
Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
.
Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
.
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.

amores-impossiveis-3162451-1238

Pablo Neruda

Com palavras
Abril 4, 2014

Com palavras me ergo em cada dia! 
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto 
e saio para a rua. 
Com palavras – inaudíveis – grito 
para rasgar os risos que nos cercam. 
Ah!, de palavras estamos todos cheios. 
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor 
em quatro ou cinco línguas. 
Tomamo-las à noite em comprimidos 
para dormir o cansaço. 
As palavras embrulham-se na língua. 
As mais puras transformam-se, violáceas, 
roxas de silêncio. De que servem 
asfixiadas em saliva, prisioneiras? 
Possuímos, das palavras, as mais belas; 
as que seivam o amor, a liberdade… 
Engulo-as perguntando-me se um dia 
as poderei navegar; se alguma vez 
dilatarei o pulmão que as encerra. 
Atravessa-nos um rio de palavras: 
Com elas eu me deito, me levanto, 
e faltam-me palavras para contar…

silence

Egito  Gonçalves

Resgate
Novembro 6, 2013

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Há qualquer coisa aqui de que não gostam

da terra das pessoas ou talvez

deles próprios

cortam isto e aquilo e sobretudo

cortam em nós

culpados sem sabermos de quê

transformados em números estatísticas

défices de vida e de sonho

dívida pública dívida

de alma

há qualquer coisa em nós de que não gostam

talvez o riso esse

desperdício.

.

Trazem palavras de outra língua

e quando falam a boca não tem lábios

trazem sermões e regras e dias sem futuro

nós pecadores do sul nos confessamos

amamos a terra o vinho o sol o mar

amamos o amor e não pedimos desculpa.

.

Por isso podem cortar

punir

tirar a música às vogais

recrutar quem vos sirva

não podem cortar o verão

nem o azul que mora

aqui

não podem cortar quem somos.

Manuel Alegre

Soneto de Fidelidade
Julho 17, 2011

De tudo ao meu amor serei atento
antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
e em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive,
quem sabe a solidão, fim de quem ama,

eu possa me dizer do amor (que tive):
que não seja imortal, posto que é chama,

mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Morais

Soneto de Separação
Novembro 24, 2008

tempestade20ao20anoitecer

De repente, do riso fez-se o pranto

silencioso e branco como a bruma,

e das bocas unidas fez-se a espuma,

e das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente, da calma fez-se o vento

que dos olhos desfez a última chama,

e da paixão fez-se o pressentimento

e do momento imóvel fez-se o drama.

 

De repente, não mais que de repente,

fez-se de triste o que se fez amante,

e de sozinho o que se fez contente.

 

Fez-se de amigo próximo o distante,

fez-se da vida uma aventura errante,

de repente, não mais que de repente.

 

 Vinicius de Morais