Emergência
Março 19, 2020

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
– para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

 

Mário Quintana    em    “Apontamentos de história sobrenatural

Quando eu me amei de verdade
Setembro 29, 2011


Quando eu me amei de verdade,

compreendi que em qualquer circunstância,

eu estava no lugar no lugar certo e na hora certa

e então pude ficar tranquilo.

Hoje sei que a isso se chama Auto-estima.

Quando eu me amei de verdade,

pude perceber que a minha angústia e sofrimento

não passam de um sinal de que estou a contrariar a minha verdade.

Hoje sei que a isso se chama Autenticidade.

Quando eu me amei de verdade,

parei de desejar que a vida fosse diferente,

e comecei a ver que tudo contribui para o crescimento.

Hoje sei que a isso se chama Amadurecimento.

Quando eu me amei de verdade,

percebi que é ofensivo forçar algo ou alguém a uma situação.

Hoje sei que a isso se chama Respeito.

Quando eu me amei de verdade,

comecei a livrar-me de tudo o que me diminuísse.

De início pensei que fosse egoísmo.

Hoje sei que a isso se chama Amor-próprio.

Quando eu me amei de verdade,

deixei de fazer grandes planos.

Hoje faço o que gosto, quando quero e no meu ritmo.

Hoje sei que a isso se chama Simplicidade.

Quando eu me amei de verdade,

desisti de querer ter sempre razão,

e com isso errei menos vezes.

Hoje sei que a isso se chama Humildade.

Quando eu me amei de verdade,

desisti de ficar só no passado e de me preocupar tanto com o futuro.

Agora mantenho-me mais no presente.

Hoje sei que a isso se chama Plenitude.

Charlie Chaplin

Discurso
Agosto 27, 2011

E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

Cecília Meireles


Poema do Português errante
Março 12, 2009

Por um caminho à noite caminhava

caminhava de noite sem sentido

pela própria cadência era levado

caminhava movido por um ritmo

a música interior que mais ninguém

ouvia. Caminhava de noite e não sabia

sequer o rumo e o sentido. Nem

a rosa dos ventos e os pontos cardeais

nem Cruzeiro do Sul nem bússola nem estrela.

Caminhava por caminhar. Apenas

por um íntimo impulso, um movimento

irreprimível do seu próprio pensamento.

Ou nem sequer. Talvez não fosse

senão a própria marcha. Um corpo

avante. Um corpo em seu mistério caminhante

não mais que um corpo em marcha no caminho

ninguém sabe se certo se perdido.

E só se ouvia o som do seu arfar

e  não havia aliás outro sentido

senão o de caminhar por caminhar.

man_down_the_road_by_goldenso

 Manuel Alegre