Espelho
Julho 22, 2014

Às vezes, queria ter apenas uma palavra

para te ver, tão leve como a flor, ou

tão doce como o amor; queria saboreá-la,

como se fosse um torrão – ou dizê-la

.

como fácil suspiro, sem dor nem tristeza.

De outras vezes, queria envolvê-la numa

espuma de frases, escondê-la sob a névoa

do verso, ou atirá-la ao vento que a

.

confundisse com a mais branca nuvem.

Mas essa palavra só existe porque diz

o que és, quando a digo; e se a não

.

digo, também o silêncio se transforma

em palavra, para que o espelho do poema

se abra, e nele o teu rosto me sorria.

Momentos de cor

Nuno  Júdice

Esta gente cujo rosto
Julho 8, 2014

sophia 2

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen

Gestos
Junho 25, 2014

Gestos,

apenas gestos. A minuciosa ternura

posta nas coisas imediatas,

nas que duram contra a noite,

nas que acendem lâmpadas precárias

e contêm o silêncio,

como se música fossem

e nela nos viéssemos

perder.

.

Gestos,

tu ouves?

Nem o teu coração pode dar guarida

a tanto silêncio da terra.

.

Se agora mesmo devagar nos anoitecesse

e se, mergulhados numa aguda nostalgia

ou na recordação de um rosto,

nos desencontrássemos do mundo,

só esse gesto viria resgatar-nos,

a nós, feridos de amor e de sentido.

.

Por isso, hoje só posso dizer

o que o teu coração abandonou.

mao1

Luís Filipe Castro Mendes

Poema
Janeiro 14, 2014

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice

A Palavra não tem Olhos
Agosto 6, 2013

A Palavra não tem olhos mas pálpebras de neblina

às vezes transparente. Por isso ela caminha lentamente

como uma sombra em corredores de sombra

e treme como se fosse cair ou perder o seu hálito

.

Ela quer ler a sua própria chama

que às vezes não é mais do que um archote de cal

Nunca sabe o dia da semana porque o seu calendário é o vento

e arde sob a chuva da sombra como uma lâmpada trémula

.

Mas o seu rosto não se vê em nenhum espelho

e embate na porta atrás da qual se ouvem ecos

que não são de ninguém ou já foram e talvez sejam de retratos

e procura levantar a parede que falta sempre num dos seus lados

fosforo-autor-desconhecido

António Ramos Rosa

Pátria
Maio 15, 2013

Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

.

Pelos rostos de silêncio e de paciência

que a miséria longamente desenhou

rente aos ossos com toda a exactidão

do longo relatório irrecusável

.

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

.

E pela limpidez das tão amadas

palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo das palavras

donde se erguem as coisas nomeadas

Pela nudez das palavras deslumbradas

.

– Pedra rio vento casa

pranto dia canto alento

espaço raiz e água

Ó minha pátria e meu centro

.

me dói a lua me soluça o mar

e o exílio se inscreve em pleno tempo

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Camões e a Tença
Abril 25, 2013

Irás ao Paço. Irás pedir que a tença

seja paga na data combinada

Este país te mata lentamente

País que tu chamaste e não responde

País que tu nomeias e não nasce

.

Em tua perdição se conjuraram

calúnias desamor inveja ardente

e sempre os inimigos sobejaram

a quem ousou seu ser inteiramente

.

E aqueles que invocaste não te viram

porque estavam curvados e dobrados

pela paciência cuja mão de cinza

tinha apagado os olhos no seu rosto

.

Irás ao Paço irás pacientemente

pois não te pedem canto mas paciência

.

Este país te mata lentamente

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Entre Março e Abril
Abril 4, 2013

flor5

Que cheiro doce e fresco,

por entre a chuva,

me traz o sol,

me traz o rosto,

entre Março e Abril,

o rosto que foi meu,

o único

que foi afago e festa e primavera?

.

Oh cheiro puro e só da terra!

Não das mimosas,

que já tinham florido

no meio dos pinheiros;

não dos lilases,

pois era cedo ainda

para mostrarem

o coração às rosas;

mas das tímidas, dóceis flores

de cor difícil.

entre limão e vinho,

entre marfim e mel,

abertas no canteiro junto ao tanque.

.

Frésias,

ó pura memória

de ter cantado –

pálida, fragrantes,

entre chuva e sol

e chuva

– que mãos vos colhem,

agora que estão mortas

as mãos que foram minhas?

Eugénio de Andrade

As palavras interditas
Fevereiro 14, 2013

Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

barco 2
Eugénio  de  Andrade

Dez réis de esperança
Janeiro 22, 2013

o-exito-da-vidaSe não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

António Gedeão