Canção da breve serenidade
Outubro 10, 2019

chuva

Ouço a chuva cair. Olho as ruas molhadas.

Penso nas violetas e nos jardins em flor.

Desce ao meu coração uma paz sem memória.

Desce ao meu coração uma doçura imensa…

.

Lembro o amor a dormir tranquilo e sossegado

A rua esquiva e sem pregões, a rua pobre,

a rua humilde e a casa pequenina, em que se abriga

Lembro a infância que foi e outras manhãs já longe.

.

Sinto a vida como a chuva descendo

sobre os quietos beirais, sobre as ruas, descendo.

Sinto que o tempo é bom porque não pára nunca.

.

Um ritmo de abrigo envolve as coisas, tudo,

vontade de dormir o grande sono calmo

ouvindo a chuva triste e mansa a descer sobre mim.

Augusto Frederico Schmidt

Não sei de onde veio
Fevereiro 24, 2019

“Só sei que o sonho nunca tem pressa.”

Foi nessa idade que a poesia me veio buscar
Não sei de onde veio
do inverno, de um rio
Não sei como nem quando
Não, não eram vozes
não eram palavras
nem silêncio
Mas da rua fui convocado
dos galhos da noite
abruptamente entre outros
Entre fogos violentos
voltando sozinho
lá estava eu sem rosto
E fui tocado.

noite-de-luar


Pablo Neruda

Nenhuma morte apagará
Fevereiro 18, 2019

Eu estava tão perto de ti que tenho frio ao pé dos outros.-  PAUL ÉLUARD

amor

Nenhuma morte apagará os beijos

e por dentro das casas onde nos amámos

ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre

estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,

esses densos sinais do amor e da morte

com que se vive a vida.

.

Aí estarão de novo as nossas mãos

e nenhuma dor será possível onde nos beijámos.

Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.

Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,

profundamente, no peito dos amantes,

a nossa alma líquida e atormentada

.

desvendará em cada minuto o seu segredo

para que este amor se prolongue e noutras bocas

ardam violentos de paixão os nossos beijos

e os corpos se abracem mais e se confundam

mutuamente violando-se, violentando a noite

para que outro dia, afinal, seja possível.

Joaquim Pessoa

Marco
Janeiro 28, 2018

Na rua escondida

o marco do correio

há muitos anos recebe

as escassas cartas

que mudam a vida.

Há muito que está

fora de serviço

mas a companhia

não informou ninguém.

hug

Pedro Mexia

Vesperal
Setembro 7, 2015

E, contudo, é bonito
o entardecer.
A luz poente cai do céu vazio
da ramagem
e fica esparramada em cada folha.
Imóvel, a paisagem
parece adormecida
nos olhos de quem olha.
A brisa leva o tempo
sem destino.
E o rumor citadino
ondula nos ouvidos
distraídos
dos que vão pelas ruas caminhando
devagar
e como que sonhando,
sem sonhar…

por do sol 3

Miguel Torga

Noite de Abril
Abril 26, 2014

Hoje, noite de Abril, sem lua,

a minha rua

é outra rua.

.

Talvez por ser mais que nenhuma escura

e bailar o vento leste

a noite de hoje veste

as coisas conhecidas da aventura.

Foz

Uma rua nova destruiu a rua do costume.

Como se sempre nela houvesse este perfume

de vento leste e Primavera,

à sombra dos muros espera

.

alguém que ela não conhece.

E às vezes, o silêncio estremece

como se fosse a hora de passar alguém

que só hoje não vem.

.

Sophia de Mello Breyner Andersen

Verso sem despedida
Outubro 15, 2013

Haverás de bater em minha porta

quando a noite chegar serena, fria,

carregando a paixão pesada e morta,

relembrarás a minha companhia.

.

Distante da esperança que conforta,

perto do desengano que crucia,

verás que toda volta à rua é torta,

e a casa encontrarás sempre vazia.

.

Tu chorarás ao ver o meu desprezo

sem poder reduzir, sequer, o peso

da cruz que colocaste em minha vida.

.

E nessa hora de dor que mortifica,

a poetisa parte… o verso fica

sem ódio, sem rancor, sem despedida…

outono_londres_c2a9imagoverbalis

Sarah Rodrigues

Poema contíguo ao Ódio
Setembro 30, 2012

Que gelado sopro nos agita

do lado de dentro das ruas?

 .

Que rápida vertigem nos domina

nesta agudíssima manhã?

.

Este vento que nos queima

estas veias mais quentes

Estes longos minutos

que sacodem o rosto

Estes ponteiros gigantes

que nos marcam os séculos

Estes rios de sal que abrem

sulcos nos ossos

.

Esta raiva que nos corta

estas lâminas nos lábios

Estes vidros de silêncio que

nos enchem a boca

Estes deuses que sorriem

estas lágrimas mais puras

Estes grandes traços negros

de trânsito impedido

João Rui de Sousa

Em todas as ruas te encontro
Junho 12, 2011

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

Conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto tão perto tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco.

Mario Cesariny

Um fado – palavras minhas
Fevereiro 22, 2011

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava

em olhos que eram meus e mais felizes. 

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias”