Escrevo-te
Agosto 16, 2018

 Escrevo-te com o fogo e a água.

 Escrevo-te no sossego feliz das folhas e das sombras.

Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.

Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.

 Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

 O que procuro é um coração pequeno, um animal perfeito e suave.

 Um fruto repousado, uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,

 uma pergunta que não ouvi no inanimado,

 um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?

 Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.

 As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.

 O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,

 o grande sopro imóvel da primavera efémera.

.

 António Ramos Rosa

(Volante Verde – 1986)

Port Wine
Março 28, 2014

V.Porto

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

Joaquim Namorado

Viagem
Fevereiro 14, 2011

Viajo.

 Sozinho e contigo.

 Sozinho porque não estás ao meu lado.

 Contigo porque trago a tua música nos meus ouvidos,

 o teu sabor na minha boca,

 o teu corpo na minha cabeça.

 E continuo a viajar.

 Percorro as avenidas das nossas memórias,

 as estradas das nossas emoções,

 os caminhos do nosso amor,

que ligam os nossos corações.

 E não paro de viajar,

 porque tu és o caminho que não me canso de andar.

 

Jerónimo  Cruz

Despedida
Junho 19, 2010

Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos

quando anunciaste a despedida

e eu que habitara lugares secretos

e me embriagara com os teus  gestos

recolhi as palavras vagabundas

como a tempestade que engole os barcos

porque  ama os pescadores

Impossível separarmo-nos

agora que gravaste o teu sabor

sobre o súbito

e infinito parto do tempo

Por isso te toco

no grão e na erva

e na poeira da luz clara

a minha mão

reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira

exausto

e desfila entre mercados e ruas

eu escuto sempre a voz que é tua

e que dos lábios

se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam

os corpos dos amantes

o teu ventre aceitou a gota inicial

e um novo habitante

enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar

encostámos os nossos lábios

à funda circulação do sangue

porque me amavas

eu acreditava ser todos os homens

comandar o sentido das coisas

afogar poentes

despertar séculos à frente

e desenterrar o céu

para com ele cobrir

os teus seios de neve

Mia Couto